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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Dana Delany

Isabel, a new friend of mine, sent me the link to this interview with the incredibly beautiful and talented actress Dana Delany. You can read more about her life and her work here, but the reason why I was sent this link is because Isabel knew I'd be happy to "meet" one more childless woman who seems to be having a great life!

Dana is 60 years old (can you believe it? I am still in shock) and said her secret for looking young is, and I quote; "I've never been married, I don't have kids, I do yoga everyday and I drink a lot of wine". I am sure there is much more to it than she reveals, but, hey, why don't we try it ourselves?

There is a yoga course waiting for me starting next week, and a half-full bottle of wine in my fridge. Off I go, ladies. Wish me luck and please let me know if this works for you too, hu? The comments section is open.

 

sábado, 11 de julho de 2015

Violência obstétrica - a voz das brasileiras


Vídeodocumentário popular produzido por Bianca Zorzam, Ligia Moreiras Sena, Ana Carolina Franzon, Kalu Brum, Armando Rapchan.

Produzido a partir de depoimentos reais de mulheres, gravados em suas próprias casas com webcam, celular e máquina fotográfica.

Uma bela iniciativa de conscientização sobre as tristes e violentas situações às quais as mães brasileiras (entre outras tantas nacionalidades) são submetidas durante o período de gravidez e parto. 

Nicole Rodrigues

sábado, 25 de abril de 2015

Sobre a banalidade da epistomia nos partos em maternidades brasileiras


Imaginar que alguém te cortaria sem anestesia para fazer mais espaço para o bebê que quer nascer, certamente pode ser descrito como um dos piores pesadelos. Mas, infelizmente, trata-se de um pesadelo pelo qual muitas mulheres que se preparam para ter um parto normal acabam passando, já que se tornou prática comum em maternidades brasileiras.

E isso não é de agora. Minha mãe descreveu algumas vezes o horror que foi me dar à luz em uma maternidade em São Paulo, lá no começo da década de 80, e como o médico esperou até a minha cabeça aparecer para dar início ao atendimento do parto, embora ela estivesse na maternidade esperando há horas, aos prantos, e como ele entrou, não disse uma palavra, a cortou e ela desmaiou de tanta dor. Depois, ela só lembra que acordou pelada, em uma maca de metal, sem colchão e que estava tremendo de frio.

Anos depois um moça que trabalhava como faxineira em nossa casa engravidou. No dia que a bolsa estourou a levamos para um hospital em Brasília. Dias depois, fui visitá-la e ela disse: me cortaram inteira: daqui (apontando pra vagina) até lá atrás. Tô cheia de pontos. Não sei pra quê isso. Eu tava dilatada. Ele enfiou a mão toda dentro de mim várias vezes para ver e eu tava dilatada… ela disse, confusa.

Eu tinha 14 anos, não tinha noção alguma de que um dia viria a saber que havia um termo para aquele corte e que ele era bem mais comum do que eu jamais pudesse imaginar nos trabalhos de parto.

A Isabela Liborio foi gentil o bastante para compartilhar comigo um link para uma matéria do Estadão sobre a violência obstétrica. Vale a pena ler tudo. Mas vou colocar uma parte aqui para vocês.

O nascimento de Pedro foi um pesadelo para a mãe dele, Milena Caramori, na época com 23 anos. A engenheira florestal chegou ao Hospital Sorocabana em Botucatu, interior de São Paulo, depois de uma madrugada em trabalho de parto. Teve as pernas amarradas e, por isso, não conseguia fazer força o suficiente para dar à luz. Para “ajudar” o bebê a nascer a enfermeira subiu na barriga de Milena espremendo o ventre dela com o peso de seu corpo (a manobra de Kristeller é sabidamente responsável por lesões sérias na mulher e, por isso, desaconselhada há décadas.) Mas o pesadelo não terminava por aí. Sem nenhuma anestesia, a médica fez uma episiotomia em Milena, ou seja, cortou o períneo, região entre a vagina e o ânus, para ampliar o canal de parto e também “ajudar” o bebê a nascer. “Eu gritava. Eu só conseguia gritar”, lembra. O parto foi assistido por diversos residentes e o marido de Milena foi deixado de fora “porque a sala estava lotada”. Pedro nasceu e um residente foi incumbido de fazer a sutura, ainda sem anestesia. Foram sete pontos, que tiveram de ser refeitos. “Ouvi a médica dizer que estava tudo errado, que era para refazer”, lembra.

Me parte o coração. Como se não bastasse a pressão social para que mulheres se tornem mães, independente do que desejam para si, as que decidem fazê-lo ainda acabam passando por esse tipo de humilhação e abuso extremo ao darem à luz. É um absurdo sem tamanho.

Conhecimento e compartilhamento de informações são antídotos poderosos neste cenário. Mulheres, mães ou não, unai-vos! Unai-vos para que nossos corpos e os de nossas irmãs, amigas, primas, vizinhas e conhecidas, sejam, de fato, nossos. E que o direito à escolha de ser mãe ou não, de como parir, de onde parir, de com quem parir, seja nossa. Somente nossa.

Fonte da matéria citada: o Estadão.


segunda-feira, 23 de março de 2015

Ser mãe é padecer no paraíso?

A reflexão do úlltimo post da Ligia Sena, autora do blog Cientista que virou mãe, sobre a maternidade consciente é tão profunda e tão pertinente, que vale a pena ler o texto todo. Todo mesmo. Mas a parte que mais me chamou a atenção e que destaco aqui no blog para vocês é a seguinte:
Embora grande parte da sociedade pense que ser mulher seja sinônimo de querer ser mãe, não é. Nunca foi. O que, sim, sempre existiu é uma atitude social determinista de querer incutir obrigatoriamente na mulher o sentimento de "dever de maternidade". E isso é bem fácil de ser constatado, nas perguntinhas constrangedoras de "E aí, quando vai dar um neto pros seus pais?", ou "Já faz tempo que você está casada, não vai encomendar um herdeiro?", ou então "Só pensa em estudar, estudar, estudar. Quando vai casar e ter filhos?", entre outros tantos exemplos de tentativas de controle social do "ser mulher".
Uma mulher deve ser absolutamente livre para escolher e decidir aquilo que quiser sobre sua própria vida. E isso não traz a ela nenhum tipo de desvalor ou menos valia. E também não deve subentender julgamento de quem faz escolhas diferente das suas. Ponto final.
Porém, a escolha pela maternidade - e ela se faz de diferentes maneiras, com planejamento prévio ou sem, com filho no ventre ou já crescido - também não subentende felicidade, completude, epifania, deslumbramento, romantismo e ausência de desafios. Muito pelo contrário. Todo mundo que assume a maternidade de maneira integral e completa sabe que mais frequentes são os momentos de dúvidas que de tranquilidade. E isso não diminui o fato de ser mãe. A não ser que você tenha a ilusória ideia de ser mãe como sinônimo de felicidade. Não são sinônimos e nunca serão. O que, sim, pode acontecer, e de fato acontece com muitas de nós, é tornarmos a experiência da maternidade algo positivo, enriquecedor, onde criar uma criança também nos ajude a nos criarmos e nos desenvolvermos como seres humanos melhores. Não existem paraísos ou padecimentos obrigatórios.
E é justamente por compreendermos a maternidade como uma experiência sobretudo humana, na mais ampla acepção do termo, que precisamos tanto acolher suas manifestações amorosas quanto suas manifestações de angústia. É difícil ser mãe. É difícil tornar-se mãe. É difícil passar por transformações que vão muito além de uma barriga que cresce e peitos que produzem leite. É difícil nos ressignificarmos no mundo. É muito difícil. Não é à toa que tantas e tantas mulheres passam por maus bocados logo após o nascimento de seus filhos, em períodos que podem variar de um leve baby blues a uma depressão profunda.

sábado, 13 de setembro de 2014

Direitos das crianças


“I don’t know anything about politics. But every child should matter. We talk about abortion and there’s an uproar. But what about the billions of children that are already out there in the world? The only way that things can change is if ordinary people stand together – not a few people here or there making a noise - but across the whole world – and say we are standing up for the rights of the child. The legislation is there. We just need to make sure it’s implemented.”

"Eu não entendo de política. Mas a vida de cada criança deveria contar. A gente fala de aborto e todo mundo acha um absurdo. Mas e os bilhões de crianças que já estão no mundo? O único jeito das coisas mudarem é se pessoas comuns se unirem - não apenas algumas pessoas aqui e outras lá - mas pessoas em todo o mundo - e disserem: nós estamos lutando pelo direito das crianças. A legislação existe. Nós só temos que garantir que ela seja implementada."

Christina Noble
Escritora, filantropista e ativista irlandesa


domingo, 10 de agosto de 2014

Podcast - Uma comunidade de mulheres sem filhos

http://www.clackamas.us/corrections/victim.html


Uma em cada 5 mulheres no Canadá chega aos 40 sem ter filhos - o dobro da geração anterior. Essas mulheres estão se tornando um grupo cada vez mais orgnanizado, ativo e expressivo, determinado a redefinir as narrativas culturais da maternidade e do que é ser mulher nos dias de hoje.

Neste podcast do canal de rádio americano CBC 1, Lisa Manterfield, Melanie Notkin e Laura Scott, algumas das figuras mais proeminentes da comunidade online de mulheres sem filhos, discutem o que as levou a não se tornarem mães e como elas lidam com esta escolha em uma sociedade cada vez mais focada na criança e obcecada em controlar os direitos reprodutivos das mulheres.

Ouça este interessante debate (em inglês) e comente o que você achou aqui conosco.

domingo, 30 de março de 2014

What women deserve (O que as mulheres merecem)


Esse vídeo é tão maravilhoso que não pude me conter e postei agora mesmo, minutos antes de assisti-lo pela primeira vez, ainda que não haja legendas em português (mas encontrei um link para a transição do áudio, aqui).

Assim que sobrar tempo farei questão de traduzi-lo eu mesma e de postar a versão em português aqui para vocês lerem. Mas, por ora, fica aqui o registro do trabalho da maravilhosa Sonya Renee Taylor, poeta e ativista americana que, neste poema, "What women Deserve", discorre sobre porque as mulheres merecem mais.

Esta obra é centrada na ausência do direito a fazer escolhas que envolvem o nosso próprio corpo, na ausência do direito ao aborto de forma legalizada e com atendimento médico adequado, na ausência do direito de não nos tornarmos mães, e em toda hipocrisia social e polïtica que envolve estes assuntos e que os impede de serem tratados como a escolha individual e instranferível que são.

Nicole Rodrigues

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Maternidade: direito de escolha (Monica March)


"A maternidade me parece algo mágico. Um ser humano que nasce da combinação de duas pessoas que, salvo exceções tristes, um dia se amaram ou ainda se amam. Um bebê pode acabar ensinando muito mais do que aprende aos que com ele convivem. Crianças cada dia mais inteligentes, divertidas e saudáveis.

Mas, assim como grande parte das mulheres deseja ser mãe, aquelas que escolheram ou decidem não fazê-lo, seja por qual for o motivo, também têm de ser respeitadas. Eu, em dado momento de minha vida, decidi não ter filhos e o fato de nunca gerar uma vida não me faz menos humana ou menos predisposta a amar.

Para algumas pessoas é difícil entender essa posição. Como ir contra a natureza. Acontece que, para mim, nada é contra a natureza. A incompreensão me parece ignorante, crescendo em bases sem estrutura de informação e educação.

Acredito que, aqui, o mais importante de tudo seja transformar esse tema em um dos principais alicerces de um relacionamento. Há anos a história se repete: pessoas que desejam filhos escolhendo quem não quer tê-los e vice-versa. Estão apaixonados e acreditam, pobres almas, que poderão modificar o outro ou seu pensamento com o passar do tempo.

Ninguém muda ninguém. Isso é um fato. E o pior desfecho desta história é não reconhecer a incompatibilidade antes que o tempo passe e um ou mais seres humanos sejam concebidos sem vontade. No final são eles as vítimas da infelicidade e da frustração alheias. Sem contar que aquela pessoa que tanto queria ter filhos poderia ser muito mais feliz com alguém que pensasse como ela.

Estes dias em uma das minhas muitas paradas em livrarias, me deparei com o livro Aprendi com Jane Austen, de William Deresiewicz. Ele, que antes só pensava em James Joyce e Joseph Conrad, se viu com um exemplar de Emma, um dos grandes sucessos de Jane, em suas mãos. “O livro mudou minha vida”, diz o respeitado crítico literário. Por quê? “Fundamentalmente, Jane Austen me ensinou que o que chamamos amor à primeira vista é uma grande incoerência. Também fui criado para um dia, sem mais nem menos, encontrar o amor da minha vida, minha alma gêmea. Mas depois de ler Austen acordei para o fato de que temos que nos preparar para o amor. Estar prontos para ele e conhecer muito bem a pessoa por quem vamos nos apaixonar. As heroínas de Austen casam pelo motivo certo: o amor. E este encontro também se dá no mundo das ideias, dos ideais, dos objetivos.”

As pessoas se encontram no mundo e se relacionam. Mas ainda não sabem a importância da compatibilidade para uma vida em comum. Que o amor vem antes da paixão e devagar. E que ter ou não filhos é um dos tópicos que deveria estar em um dos primeiros lugares nesta lista que, mais do que nos revelar compatíveis, nos coloca em vantagem na busca da felicidade."


Felizes sem filhos (parte VII)


Não ter filhos sempre foi um caminho natural para a psicóloga e professora universitária Fabiane Machado. Aos 40 anos, ela não sente a mínima falta de ser mãe e se diz satisfeita com a vida que tem. Ainda mais nos últimos cinco anos, depois da união com o advogado Marcelo Machado, que divide com ela a predileção por viver sem a presença de crianças. Com a cumplicidade que surgiu pela convergência de espíritos afins, o casal preserva a liberdade de que tanto gosta - e não tem qualquer intenção de mudar. Quando começaram a se envolver, uma das primeiras coisas que Fabiane perguntou ao novo namorado foi se ele desejava ter filhos. A resposta negativa foi a senha para o início de um grande amor.

- Somos muito felizes assim, tenho a vida que sempre quis.

Mas engana-se quem pensa que eles excluíram as crianças das suas vidas. Tios atenciosos e cheios de sobrinhos, Fabiane e Marcelo participam ativamente da vida de seus pequenos, a quem amam e com quem fazem questão de conviver. Baixinha, Fabiane comenta causar identificação imediata com as crianças, o que é motivo de alegria. Com a vantagem que, depois de brincar, cada filho vai para a casa de seus pais, devolvendo o casal ao seu adorado cotidiano a dois.

Fonte: Jornal Zero Hora
Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS
Reportagem: Patricia Lima
Fotos: Adriana Franciosi

Felizes sem filhos (parte VI)


Para a professora do Método De Rose, Naiana Alberti, de 37 anos, não ter filhos foi uma escolha fácil, pois desde muito jovem soube que não queria ser mãe. Não tem o tal instinto materno e, principalmente, não pretende abrir mão da liberdade de ir e vir a hora que quiser, sem ter que pensar que alguém depende dela.

- Ter filhos é uma responsabilidade enorme. E eu simplesmente não estou disposta a assumi-la - afirma.

Equacionar essa decisão como casal também foi simples, já que o companheiro de Naiana pensa como ela e não deseja ser pai. A quem lhe repete as velhas perguntas, ela responde que é feliz assim, do jeito que está.

- Não há vazios para preencher no meu relacionamento, não quero um enfermeiro para a minha velhice e não me sinto sozinha, pois tenho amigos e estou constantemente cercada de amor. Há muitas formas de ser feliz e cada um tem que achar a sua.

O trabalho, que é um dos fatores que afastam as mulheres da maternidade, não está entre os motivadores da decisão de Naiana. Sócia da escola em que dá aulas, ela se considera uma apaixonada pela atividade profissional que exerce. No entanto, não tem sua vida inteiramente voltada para o negócio. Tem tempo livre - pouco, diz ela, mas tem - e faz questão de viver tudo o que gosta, ao lado do marido e dos muitos amigos que cultiva. E nunca perde a oportunidade de deixar claro que renunciar à maternidade é uma decisão pessoal, íntima e sobre a qual as pressões externas não costumam funcionar.

- Até pela natureza do meu trabalho, busco o autoconhecimento constantemente. E estou muito segura e tranquila com a minha decisão. Isso, para mim, é a felicidade.

Fonte: Jornal Zero Hora
Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS
Reportagem: Patricia Lima
Fotos: Adriana Franciosi

Felizes sem filhos (parte V)

E quem vai te cuidar na velhice?

À mais clássica e recorrente das perguntas feitas a quem não pretende ter filhos, estatísticas elaboram a resposta. São as amigas, e não os filhos, que tomam conta das mulheres na maturidade. É o que diz uma longa pesquisa feita pela antropóloga Mirian Goldenberg e publicada em seu mais recente livro, A Bela Velhice. Segundo a estudiosa, existe a ilusão de que filhos são a garantia de uma velhice menos solitária e mais feliz. O problema é que, na maior parte dos casos, essa expectativa não se confirma, gerando enorme frustração nas idosas.

- O que percebi na pesquisa é que as amigas cumprem esse papel de cuidado e carinho na velhice. Um vínculo gerado exclusivamente pelo afeto, e não pela obrigação, origina relações de grande cumplicidade entre as amigas, que se divertem, se acompanham e se cuidam mutuamente - comenta Mirian.

Outra percepção revelada por Mirian é a idealização da maternidade e da família, outra fonte de frustração na maturidade.

- Muitas idosas falam da família como uma prisão, como algo que as privou de muitas coisas boas, como a liberdade. E dizem que ao final da vida percebem que o sacrifício não valeu a pena.

A antropóloga deixa claro, no entanto, que o objetivo do livro não é desestimular a maternidade ou a crença na família. Quer somente alertar para os perigos de depositar nos filhos a esperança de uma velhice feliz. Para garantir felicidade e cuidados na etapa final da vida, ela aconselha as mulheres a cultivarem suas amizades e suas relações sociais.
Fonte: Jornal Zero Hora
Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS
Reportagem: Patricia Lima
Fotos: Adriana Franciosi

Felizes sem filhos (parte IV)


A publicitária Leah Macedo, de 48 anos, tem um único motivo para não querer ter filhos. Não é a preocupação com o corpo, não é a dedicação exclusiva ao trabalho, não é a indiferença às crianças, não é a falta de amor. O motivo é o gosto. Gosto, não. É a necessidade vital de liberdade. Não ter amarras, poder estar aqui e lá, estar livre para transitar pelo mundo, é o que verdadeiramente a motiva para escolher a vida que tem.

- Quando era pequena, adorava as minhas bonecas. Mas elas ficavam intocadas na prateleira. Nunca tive muita vontade de brincar de verdade com elas. Gostava mesmo era de brincar de executiva, que tinha muitas reuniões e viajava pelo mundo - comenta Leah.

Além de não desejar filhos, ela também não queria casar. Tudo para manter-se livre. Preservou a convicção da solteirice até os 37 anos, quando conheceu um grande amor.

- Cedi ao me casar e então pensei: "Ah, pode ser que me dê até vontade de ter filhos". Mas acontece que a vontade não veio.

O casamento terminou e hoje Leah considera a possibilidade de engatar um novo relacionamento. Mas a convicção de não ter filhos permanece intacta. Afinal, é uma mulher feliz, resolvida e cheia de amor, sem filhos por perto.
Fonte: Jornal Zero Hora
Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS
Reportagem: Patricia Lima
Fotos: Adriana Franciosi

Felizes sem filhos (parte III)


As coisas foram acontecendo sem muito planejamento na vida da advogada Vera Martini, de 55 anos. Quando jovem, queria casar-se e ter filhos. Mas o amor da vida tardou a chegar e ela nunca pensou em produção independente. Quando encontrou seu companheiro e casou, aos 42 anos, já era tarde para a maternidade.

- Não havia mais espaço na minha vida para filhos. Não queria abrir mão de tudo para ser mãe.

E foi assim que a vida se encarregou de mostrar a ela que a felicidade seria possível, mesmo com o desvio do plano inicial. Hoje, mais madura, compreende que a maternidade nunca foi uma necessidade, um desejo visceral. Era mais um apelo cultural, que ainda causava eco em sua geração de mulheres, para quem a única felicidade genuína residia na formação de uma família. Na verdade, segundo Vera, isso nunca foi importante.


Observá-la com os sobrinhos e afilhados, no entanto, prova que não é preciso parir filhos para exercer o amor maternal. Ela os mima, convive com eles, fez de todos gremistas fanáticos e os carrega para a Arena sempre que pode. Apesar disso, e talvez por causa disso, nunca sentiu falta de filhos seus.

- Não ter filhos mais cedo foi circunstância. Depois, foi decisão.

Fonte: Jornal Zero Hora
Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS
Reportagem: Patricia Lima
Fotos: Adriana Franciosi

domingo, 24 de novembro de 2013

Felizes sem filhos (parte II)

Não quer filhos? Como assim?

Em uma sociedade em que o normal aceitável ainda é casar e ter filhos, não desejá-los pode trazer alguns incômodos. Muitas vezes, mais difícil do que tomar a decisão é explicar para a família e os amigos que, sim, é possível ser feliz sem a maternidade. As mulheres ouvidas para esta reportagem e todas as outras com quem se conversou sobre o assunto são unânimes em afirmar que já foram questionadas, pressionadas e até mesmo constrangidas com perguntas e afirmações do tipo:

- Você diz isso agora porque não tem filhos. Quando tiver, vai pensar diferente.
- Que horror, não diz isso!
- Se teu marido não tiver filho contigo, vai ter com outra.
- Não vais saber o que é o amor até seres mãe.
- Isso é egoísmo da tua parte.
- Que vida triste tu vais ter!
- Só serás mulher de verdade quando tiveres um filho.

Diante da patrulha, muitas mulheres desenvolvem mecanismos para driblar as situações desconfortáveis. A psicóloga Fabiane Machado, por exemplo, responde que é estéril aos que a interpelam com insistência. Ocorre que ela nunca sequer tentou engravidar. Explicar sempre a mesma coisa, no entanto, já não é mais tolerável. Então, simplesmente inventa uma história mais constrangedora que a pergunta. E assim se livra dos inconvenientes interrogatórios sobre sua intimidade.

A necessidade de uma explicação para não desejar a maternidade tem raízes culturais. Um estudo coordenado pela socióloga britânica Katherine Hakim chamado Childless in Europe revela que, antes do aparecimento dos anticoncepcionais e da revolução sexual dos anos 1960, as mulheres não tinham filhos por causa da pobreza ou das guerras. Não tê-los era sinônimo de desgraça, miséria ou algum tipo de castigo divino que as fez inférteis. Hoje, ao contrário, cerca de 20% das européias não são mães - e somente 2% ou 3% delas não o são por infertilidade.

O mito da mãe que padece no paraíso e a aura de sublimação em torno da maternidade também ajudam a explicar o estranhamento que a decisão de não procriar ainda provoca. Mas até isso está em transformação. Parir e criar filhos já não é sinônimo de indiscutível felicidade graças a relatos de pais e mães dispostos a desvelar as faces nada divertidas de se ter filhos, sem idealização, sem romantismos. Uma das primeiras a tirar o véu que encobre os problemas da maternidade foi a bibliotecária americana Selena Giampa, que criou o blog Because Motherhood Sucks (Por que a maternidade enche o saco, em livre tradução). Ela afirma que adora ser mãe e que tem momentos de intensa felicidade. O problema é que, entre um desses momentos e outro, tudo que ocorre é desgastante e chato. Relatos como o dela abrem caminho para que outros pais e mães sintam-se menos culpados ao admitir que a função não é só alegria e que requer, sim, altas doses de paciência, renúncia e esforço. E que está permitido recusar-se a enfrentar tamanho desafio.

Algumas celebridades, que já manifestaram publicamente a decisão de não ter filhos, também ajudam as mulheres comuns sem instinto materno a sentirem-se menos extraterrestres. As atrizes Cameron Diaz, Helen Mirren, Oprah Winfrey, Renee Zellweger e a brasileira Totia Meirelles são algumas das que já declararam que fihos não têm espaço em suas vidas. E que são bem felizes desse jeito.

Fonte: Jornal Zero Hora
Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS
Reportagem: Patricia Lima
Fotos: Adriana Franciosi

domingo, 3 de novembro de 2013

Felizes sem filhos (parte I)

A Caroline Dutra, autora do blog Coordenada XY (que, aliás, vale MUITO a pena visitar), me enviou o link para esta ótima matéria do jornal Zero Hora sobre mulheres e casais sem filhos (obrigada!!!). Como é muito difícil encontrar matérias que abordem este assunto de maneira que não seja superficial e estereotipada, resolvi postá-la na íntegra aqui no blog mesmo, mas como ela é bem grande, vou postar por partes. Aqui vai a primeira de três.




Uma nova configuração social cada vez mais comum pode dar, em pouco tempo, um trabalhão danado aos publicitários. Eles terão que reinventar a velha fórmula do comercial de margarina (e de mais uma porção de produtos, desde alimentos até móveis e seguros de banco), já que cada vez mais mulheres e seus companheiros admitem que não pretendem ter filhos. E estão muito felizes com essa decisão. O modelo tradicional de família, no qual o casal obrigatoriamente procria, está na berlinda para muita gente.

Números comprovam o que se percebe no convívio social: casais sem filhos são cada vez mais numerosos. E, mais curioso ainda, o inverso se comprova. Dados do IBGE revelam que o número de casais com filhos vem caindo - uma queda discreta, é verdade, mas perceptível. O censo de 2010 diz também que o Rio Grande do Sul é o estado com mais casais sem filhos do país. Somente em Porto Alegre foram registrados mais de 8,6 mil na época do recenceamento.

Na prática, isso significa uma cena cada vez mais corriqueira: pessoas solteiras e principalmente casais com muitos anos de convivência que assumiram a decisão de não ter filhos. Argumentos em favor da maternidade são abundantes desde sempre. A continuidade do que somos, a realização dos sonhos frustrados dos pais, o amor incondicional possível somente quando se tem filhos, a necessidade biológica da reprodução, a companhia e o cuidado na velhice, enfim, motivos nunca faltaram no discurso coletivo. A diferença é que, de uns tempos para cá, os motivos para não tê-los também aparecem. Liberdade, individualidade, trabalho e absoluta ausência de instinto maternal estão entre as justificativas mais ouvidas.

O que parece uma tendência da modernidade tem explicações já identificadas pela ciência. O casal sem filhos, que há 50 anos não passava de uma anomalia social, hoje é observado por pesquisadores que rastreiam todo o tipo de explicação. Um dos exemplos mais esquisitos dessa corrida dos cientistas na busca de justificativas para a mudança no comportamento reprodutivo dos seres humanos vem da London School of Economics, que conseguiu encontrar uma conexão entre a inteligência das mulheres e a sua disposição em procriar. Segundo o estudo, quanto maior o Quociente de Inteligência da mulher, menor a vontade de ter filhos. A cada 15 pontos a mais no QI, cai em 25% o desejo de ser mãe.

Um dos primeiros estudos a questionar a premissa de que a maternidade traz indiscutível felicidade foi elaborado em 2004 pelo economista americano ganhador do Prêmio Nobel, Daniel Kahneman. Ele entrevistou mais de 900 mulheres no Texas e descobriu que a tarefa de cuidar dos filhos estava em 16º lugar, num ranking de 19 atividades mais prazerosas. Coisas como cochilar, falar ao telefone e rezar são consideradas mais divertidas. Uma outra pesquisa, feita em 2008 na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, revela que a relação entre os casais esfria depois do nascimento dos filhos. Para as mulheres entrevistadas, a satisfação com o casamento caiu quatro pontos ao longo do primeiro ano do rebento.

A relação entre filhos e felicidade foi abordada de forma direta em uma pesquisa conduzida pela universidade americana de Wake Forest. Nos estudos, descobriu-se que os casos de depressão são mais frequentes em pais do que em pessoas sem filhos.

Recentemente, questões ecológicas foram evocadas para incrementar o debate. Em livro publicado nos Estados Unidos, o escritor Alan Weisman afirma de modo categórico que, ou a espécie humana desacelera as taxas de reprodução, ou comprometerá a própria sobrevivência na Terra. Countdown (Contagem Regressiva, em livre tradução), que ainda não tem tradução no Brasil, cita dados de cientistas, de governos e das Nações Unidas para alertar sobre o perigo que a superpopulação representa para a permanência do homem sobre o planeta.

Fato é que, com ou sem dados científicos, ter filhos já não é ponto pacífico, não é mais unanimidade, como no tempo da vovó. Não "tem que ter". A maternidade não é mais o único caminho para a felicidade da mulher e para a harmonia conjugal. Aumentar a família é, neste nosso tempo, uma questão de escolha, motivo de reflexão e, por incrível que pareça, muita polêmica.
Fonte: Jornal Zero Hora
Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS
Reportagem: Patricia Lima
Fotos: Adriana Franciosi

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