quinta-feira, 12 de julho de 2012

Além do que esperam de nós



Cá estava eu, matando a saudade das palabras da querida Lélia Almeida, quando leio este trecho do texto chamado "Leite de rosas":

"Gosto de um livro da Victoria Sau, uma feminista espanhola da velha guarda, maravilhosa, que se chama El vacío de la maternidade. Ela afirma que a maternidade não existe, no sentido de que não existe enquanto valor social, já que somos mães para os filhos dos homens, na história do patriarcado. Tudo o que enaltece as mulheres, um pretenso amor ou instinto materno, o acolhimento, a capacidade de cuidar, é o mesmo que nos perde já que somos descartadas nas horas das tomada das decisões legítimas. As mães sírias que o digam.

Para Victoria Sau, que retoma o pensamento de Riane Eisler de quem gosto muito, em algum momento da história do mundo as mulheres, que viviam numa relação de valorização, não de poder, ao lado de suas mães, numa linhagem matrilinear, foram sequestradas pelos homens que desta maneira, através do sequestro e do rapto enfraqueceram sua referência mais importante, a mãe, a avó, a filha, as amigas, as outras mulheres. Enfraquecer este vínculo é colocar a perder a irmandade, a cumplicidade e a comunidade de mulheres. E elas passam, então, a ter filhos para os homens. Portanto, diz Sau, a maternidade não existe, se as mulheres, como mães, servem aos homens, vivem para eles e não sabem quem são e o que querem, a maternidade não existe. E as mulheres se contentariam em parir os filhos numa espécie de inconsciência calando a boca com um pênis ou com um filho, ela radicaliza. Na verdade a autora faz alusão ao grande mal que o mito do amor romântico – que direciona a existência feminina para o casamento ou para o amor - e o mito do amor materno – que faz dos filhos a centralidade de suas existências - podem fazer à vida das mulheres, imbecilizando-as a elas e sua prole, num miasma de amor cujo objetivo da vida se situa na rede dos afetos pura e simplesmente e propõe que as mulheres usem esta potencia em outras frentes, que cuidem do mundo, oras, ou que não cuidem, e que cresçam e se desenvolvam de outras maneiras também, para além do que se espera delas."

Como tudo na vida, o ideal é deixar o radicalismo de lado e colocar em práticas os conceitos que se baseiam no raciocício lógico, no bom senso e no respeito as nossas necessidades individuais, para que possamos nos tornar pessoas realizadas e possamos contribuir para o todo ao qual pertencemos, compartilhando do bem-estar e da felicidade que nos permitimos conquistar.
 
Nicole Rodrigues

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Marisa Tomei


"I don't know why women need to have children to be seen as complete human beings."

"Não sei por que as mulheres precisam ter filhos para serem vistas como seres humanos completos."  


Marisa Tomei
Atriz americana


domingo, 1 de julho de 2012

Quanto custa um filho?



Quem acompanha este blog sabe que o foco principal dos meus posts e dos textos de outros autores aqui compartilhados são voltados aos fatores e aspectos emocionais da escolha de ter ou não ter filhos. A escolha, sempre ela, é a palavra de ordem deste blog. Qualquer que seja o seu sexo, religião, classe social, raça, idade ou nacionalidade lembre-se que este é um direito de todos nós e pelo qual devemos, juntos, lutar e respeitar sempre. 

Sendo assim, a escolha não poderia deixar de existir quando se fala em algo tão importante quanto o ato de gerar ou adotar um ser humano. Quem o faz deve fazê-lo porque quer, porque escolheu, e não porque deve, porque precisa ou porque pode.

Um fator que raramente discuto, mas que é de extrema importância, dado seu impacto social e emocional na vida da mãe/pai/casal, assim como na vida do filho, é a situação financeira da pessoa que decide gerar ou adotar. Ainda que o desejo esteja presente e a vontade de ser mãe ou pai seja latente, um filho requer bem mais do que isso. Desejo e amor não pagam as contas. Criança precisa de alimentação, roupas, cuidados médicos, educação, lazer... e tudo isso custa dinheiro.

Então que tal levar este aspecto em consideração na hora de decidir ter um filho? Embora não seja o fator mais importante - este, sem sombra de dúvidas, é o desejo genuíno de se tornar mãe/pai -, deve ser levado em consideração. Porque uma simples adição dos gastos iniciais pode ajudar não necessariamente a desistir da ideia, mas a repensar esta intenção ou a planejar a melhor maneira e o melhor momento para ter um bebê. E isso, por sua vez, pode evitar uma série de problemas e otimizar uma experiência que, caso contrário, poderia dar bastante errado pela simples falta de planejamento.

Uma conversa com um (ou vários) casal de amigos ou parentes que têm filhos, uma sincera avaliação do orçamento atual e uma projeção de gastos no futuro próximo e distante, papel, lápis e calculadora na mão podem ajudar a registrar alguns gastos iniciais. Outra coisa que talvez possa ser útil é este infrográfico que encontrei esta tarde, chamado "Quanto custa um filho". Não creio em resultados exatos, mas é possível que ele ajude indicando valores aproximados com base na sua renda mensal e anual.

Com ou sem infográfico, o que importa é reservar um momento à avaliação dos gastos fixos (emocionais, psicológicos, sociais e financeiros) na criação de um filho e à sincera reflexão sobre até que ponto você, de fato:
1) deseja ter um filho (ou acha que deseja? ou acha que deve ter?);
2) tem condições financeiras de ter um filho e de garantir bem mais do que apenas sua subsistência;
3) tem interesse em levar este compromisso adiante e atender às demandas emocionais e psicológicas do seu filho sem comprometer a sua felicidade e a felicidade dele.

Porque, afinal de contas, esta é uma parceria para vida toda, embora muitos prefiram pensar que não.

Nicole Rodrigues

Filósofa francesa critica o mito da mãe perfeita em novo livro




"Em entrevista, Elisabeth Badinter rechaça o ideal da maternidade atual e diz que não há um modelo único de mãe para ser seguido

Desde a década de 70 as mulheres vêm tentando conciliar a maternidade à realização pessoal, lutando por direitos e liberdades até então característicos do mundo masculino. Porém, para a escritora e filósofa francesa Elisabeth Badinter, o passar do tempo não foi capaz de quebrar o “mito do maternalismo”, conceito baseado na existência do “instinto materno”, que deixou às mulheres uma ordem aparentemente inquestionável: é natural que elas sejam mães, e elas devem ser mães infalíveis. Mas e os desejos, anseios e vontades destas mulheres, onde ficam?

Autora do livro “O Conflito – A Mulher e a Mãe” (Editora Record), lançado recentemente, Badinter contou ao Delas que, ao longo dos anos, as mulheres acrescentaram às próprias vidas mais do que somente os filhos. Com as possibilidades de escolhas, elas foram sobrecarregadas por todos os lados e cobradas a serem mais do que perfeitas no cumprimento dos deveres maternos. Este estado de coisas, segundo ela, é interessante para a permanência da dominação masculina e para obrigar as mulheres a continuarem se devotando por completo aos filhos. É contra isso que Badinter milita. Segundo ela, a mãe que dá mamadeira ao filho não é menos mãe que aquela que amamenta. "Acrescentamos uma tonelada de culpa nos ombros maternais", diz. Veja abaixo entrevista com a autora, concedida por e-mail.

iG: Como você vê a maternidade e a maneira que as mulheres lidam com ela atualmente? Aconteceram muitas mudanças nesta concepção desde a década de 70 até os dias de hoje? 
Elisabeth Badinter:
Há 30 anos a vulgarização abusiva da psicanálise engendrou a ideia de que a felicidade, a inteligência e o desabrochar da criança – portanto, o equilíbrio dela no futuro – dependem essencialmente do comportamento da mãe. Deste então, os ecologistas e outros adoradores da natureza contribuíram para que essa crença realmente existisse: de que para ser uma boa mãe, por exemplo, preocupada com a saúde do filho, é necessário amamentá-lo 24 horas por dia. E, de preferência, se devotar inteiramente a ele durante um ou dois anos. O resultado: as mães que não querem se conformar com essas diretrizes são cada vez mais consideradas mães indignas, e suas amigas as olham com suspeita. Com o passar dos anos, de fato, acabamos acrescentando uma tonelada de culpa nos ombros maternais.

iG: Quais são as diferenças entre maternidade e paternidade atualmente? O pai moderno também colabora para cuidar do filho e dos afazeres domésticos hoje em dia ou ainda não chegamos a este ponto? 
Elisabeth Badinter:
Durante os anos 70 e 80 as jovens mulheres chamavam massivamente seus companheiros para ajudar no cumprimento dos papéis de pais – e também de donos de casa – em nome da justiça e da igualdade dos sexos. Os homens de boa vontade, portanto, começaram a cumprir as tarefas que acreditávamos até então serem reservadas às mães: dar banho nas crianças, alimentá-las, levá-las para passear, trocar a roupa delas. Eles eram chamados, ironicamente, de “papais-galinhas”. Com isso, ao invés desta mudança ser encorajada, estes pais acabaram sendo alvo de gozação e os pediatras da moda explicavam às mulheres que eles não tinham que se comportar como mães. Atualmente, os pais das classes médias fazem ainda mais do que faziam seus avôs, mas a participação deles é totalmente insuficiente. Por falta de uma pressão social e ideológica sobre eles – não está mais na moda que isso aconteça – os pais se sentem menos culpados em deixar o essencial do trabalho e das responsabilidades à mãe, que proclama cada vez mais que este é o seu papel “natural”. Mas eu luto para que justamente este endeusamento da natureza maternal seja abandonado e que nós chamemos os pais outra vez para dividirem igualitariamente as tarefas e funções relacionadas aos filhos e à casa. 
iG: Os casais que têm filhos atualmente costumam ter razões para tal ou simplesmente, na maioria das vezes, acabam seguindo as normas sem realmente pensar nas vantagens e desvantagens? Quais seriam estas principais razões? 
Elisabeth Badinter:
Há diversas razões para se ter filhos, e a maioria das razões é egoísta. Tirando os que veem ter filhos como uma ordem de Deus, os outros fazem crianças para “concretizar” um sentimento amoroso, para não envelhecerem sozinhos, para receberem amor, para transmitirem suas histórias, por ser uma nova experiência que pode apimentar uma vida “sem graça”. Estranhamente, a maioria de nós é invadida por todo tipo de ilusões: só enxergamos a felicidade e o amor que uma criança pode nos trazer e esquecemos a soma de problemas e sacrifícios que a presença dela induz, e até mesmo o ódio pelos pais que ela poderá sentir e provar em determinados períodos. Entretanto, carregamos tanto o barco dos deveres maternais em alguns países – como Alemanha, Itália e Japão – e apagamos tanto o interesse pessoal da mulher que muitas delas fazem menos filhos, ou não fazem nenhum. Estas mulheres se recusam a sacrificar a vida de mulher para a maternidade e pensam que, assim, elas terão uma vida mais livre e aberta se comparada com a que as próprias mães tiveram. 

iG: O que deveria ser feito para que as mulheres não abandonem a maternidade de vez? 
Elisabeth Badinter:
Para que a maternidade continue uma prioridade, são necessárias várias condições: tirar a culpa das mulheres que querem uma profissão mesmo sendo a profissão “mãe” a primeira delas. Já é hora de lembrar que não somos mães indignas só porque colocamos nossos bebês nas mãos de mulheres desconhecidas durante o dia. O Estado deve ajudá-las a cuidar de seus filhos nas melhores condições: creches gratuitas e abertas 24 horas por dia para as mulheres mais carentes – que às vezes também trabalham durante a noite – e creches de qualidade para todas as mães, com horários que se adaptem ao delas. Também é necessário criticar o mito da mãe perfeita – que é uma completa utopia – e recusar a imposição do modelo único de “boa mãe”. Afinal, uma mãe que dá mamadeira ao filho é tão “boa mãe” quanto àquela que amamenta. Além disso, trocar os horários de trabalho nas empresas para que os pais possam “se dividir com as mães” se torna necessário.

iG: Você aponta, em “O Conflito – A Mulher e a Mãe”, que o declínio da fertilidade, a elevação da idade média da maternidade, o aumento das mulheres no mercado de trabalho e a diversificação dos modos de vida femininos mostram que ter filhos não é mais a maior das prioridades, mas continua sendo comum. Como a mulher atual tenta se equilibrar entre tantas requisições e vontades, como filhos e vida profissional, por exemplo? Existe um ideal de estilo de vida feminino atualmente?
Elisabeth Badinter:
Justamente isso me convence da diversidade dos desejos femininos e dos estilos de vida humanos – contrariando o caso das fêmeas do mundo animal – e por isso milito pela multiplicidade dos modelos maternais. Não, não há um único estilo de vida feminino e, se formos um pouco lúcidos, reconheceremos que há muitas mulheres que farão melhor se jamais forem mães.

iG: Como esta ideia do “instinto materno” colabora para encaramos a maternidade da forma como é vista atualmente e como este tipo de concepção pode impor às mães responsabilidades cada vez maiores em relação aos filhos? Você acredita que hoje a maternidade pede obrigações mais sérias do que antigamente? Por quê?
Elisabeth Badinter:
Sim, as obrigações maternais são cada vez mais pesadas. Uma razão é a ideologia do retorno à natureza que parece existir atualmente nos países industrializados. Um dos exemplos é o caso da mamadeira. Apesar de ser tão malvista atualmente, ela foi um extraordinário instrumento de libertação das mulheres. E podemos dizer o mesmo das fraldas descartáveis. Hoje querem nos persuadir, dizendo que as mulheres que as utilizam são “anticidadãs”. Usando a ecologia como pretexto, retornamos à concepção rousseauniana da maternidade, que diz que a maternidade é a origem do confinamento das mães dentro de casa, assim como o “das freiras no convento.
iG: Como é a boa mãe atual e como, em sua opinião, ela poderia viver uma vida saudável? Você acredita que o sentimento de culpa, muitas vezes recorrente na vida da mulher, também influencia muito em como a maternidade é atualmente? Como mudar isso?
Elisabeth Badinter: Para todas aquelas que rejeitam essa concepção de “boa mãe”, inteiramente devotadas aos filhos, a culpabilidade nunca foi tão forte. Hoje é necessário muito mais tempo para educar duas crianças do que era necessário para educar seis crianças há cem anos. Você acredita mesmo que as crianças e adolescentes do século 21 são mais felizes que as de antigamente?

Jornalista: Renata Losso
Fonte: IG São Paulo

sábado, 30 de junho de 2012

FILHOS ORFÃOS DE PAIS VIVOS


Os filhos moram sob o mesmo teto, frequentam boas escolas, necessidades básicas supridas e tem acesso à tecnologia de comunicação, mas não aos pais.

"Crítico severo do modelo social em que vivemos, o argentino Sergio Sinay, terapeuta, palestrante e pesquisador dos vínculos humanos, sustenta neste livro a predominância atual de uma sociedade de filhos órfãos de pais vivos.

Para ele, não basta colocar um filho no mundo para ser pai ou mãe. Na sociedade atual, em que pais e mães vivem excessivamente atribulados, crianças e adolescentes carecem de orientação, referências, limites e valores que deem sentido às suas vidas.

O autor faz um chamado para que seja assumida a responsabilidade da educação dos filhos, tarefa que não cabe exclusivamente às escolas, muito menos às mídias, apresentando uma reflexão extremamente lúcida das consequências dessa omissão, como a violência crescente entre grupo de adolescentes, a obesidade infantil, números estarrecedores de dependentes menores de idade de álcool e outras drogas etc.

Esclarece ainda que o acesso à tv e à internet sem qualquer supervisão de pais que não filtram nem esclarecem mensagens de manipulação publicitária, puramente mercadocráticas, são alguns dos fatores responsáveis pelo desencadeamento dos males que cabe a pais e mães presentes e atentos estancar. 

Uma reflexão extremamente lúcida para orientar pais e mães a educarem melhor seus filhos em tempos tão difíceis."

Fonte: Livraria da Folha

domingo, 10 de junho de 2012

FALSOS INSTINTOS


I
O que fazer com o animal que acreditamos existir dentro de nós? E se ele vive mesmo dentro de todos nós − homens e mulheres − por que a fêmea é vista como a guardiã de todo o amor que existe no mundo enquanto o macho pode desfrutar do estilo mais desapegado, promíscuo e inconseqüente do qual se tem registro na história da humanidade?

Por que existe uma quantidade considerável de desculpas para todos os abusos e absurdos que o macho comete em relação a suas crias, enquanto as fêmeas que não reproduzem porque não podem ou não querem são vistas como aberrações da natureza?

Então cabe à fêmea a missão de procriar, sem exceção, além de alimentar, limpar, vigiar, cuidar, zelar, proteger e amar a sua criar não importa o que aconteça ou como ela se sinta − se é que sente mesmo alguma coisa − enquanto o macho pode fazer filhos a torto e a direito sem pensar? Pode fazê-los até mesmo à força, abandoná-los e seguir vivendo sem remorso ou punição?

Seriam eles, os machos, à prova de estigmas, de preconceito, de culpa e de responsabilidade?  E até quando os que estupram terão o instinto selvagem como desculpa para justificar o que não se justifica: a insanidade temporária que alegam fazê-los perder todos os sentidos, com exceção dos em volta do pênis, quando decidem que precisam transar?

II
E até quando nós, fêmeas, pararemos de usar o instinto materno como desculpa para continuarmos parindo filhos que não desejamos criar? 

Porque para quem os deseja, está tudo muito bem. Com sorte, a predisposição que lá já estava se transformará em amor ou conformação. Mas para quem sequer tem a curiosidade ou o mais remoto interesse pela reprodução e por tudo o que ela requer e representa, o fardo de se forçar a multiplicar é pesado demais para ser carregado nessa nossa vida, que é demasiado curta para ser desperdiçada com falsos instintos. 

Nicole Rodrigues

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Julia Child

Julie e Julia, as duas sem filhos, descobriram o prazer de viver colocando a mão na massa.







sábado, 26 de maio de 2012

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Livro + filme uterino = Precisamos falar sobre o Kevin

É possível que um filho se torne uma pessoa má por não ter sido genuinamente desejado e amado pela mãe? Ou filhos podem se tornar pessoas más independente de terem sido amados? De quem é a culpa? Existe um culpado? Ou trata-se de algo que jamais saberemos ao certo? Essas e muitas outras questões são levantadas no livro (e no filme) Precisamos falar sobre o Kevin.



domingo, 15 de abril de 2012

Direito ao planejamento familiar

O que há de errado com a introdução da BBC ao programa de rádio "Women´s hour" que foi ao ar no dia 08 de março de 2012 - Dia internacional da mulher? Leia abaixo e tente adivinhar.

"Mais de 215 milhões de mulheres desejam o direito de escolher quando e quantos filhos querem ter, ainda assim nenhum serviço de planejamento familiar é oferecido a elas. Assistência ao planejamento familiar vem lá atrás quando o assunto é a verba destinada em comparação a outros tópicos relacionados à saúde. A ex-presidente da Irlanda, Mary Robinson, discutirá este assunto no Parlamento Britânico a fim de destacar as razões econômicas e sociais para um maior investimento em planejamento familiar. Ela estará conosco no programa de hoje."

Eu ouvi o programa inteirinho, que, alias, é muito bom, apenas lamentei profundamente que a opção de NÃO ter filhos sequer tenha sido cogitada. A frase inicial do texto de introdução deveria ser "Mais de 215 milhões de mulheres desejam o direito de escolherem se querem ou não ter filhos, e quando e quantos filhos querem ter". Por que o acesso à pílula e a outras formas de contracepção não serve apenas para adiar a vinda de um filho, mas também para evitar que isso aconteça. Seja quando for. E a decisão de não ter filhos também deve ser vista como planejamento familiar. Afinal de contas, existem famílias de duas pessoas. Marido e mulher que decidiram não ter filhos e que, portanto, planejaram sua família.

Então me preocupou que até um tópico tão importante e próximo à causa da maternidade consciente, como é o caso do Planejamento familiar, tenha excluído o grupo de mulheres que opta pela não-maternidade.  Por que  a questão não pode começar no "vamos planejar quando e quantos filhos queremos." Mas sim no "vamos pensar e decidir se queremos ter algum filho". E se a resposta for sim, aí sim a gente parte para as outras perguntas.

Fora isso, como eu disse acima, vale a pena ouvir o programa e as ideias de uma mulher admirável como a Mary Robinson. Você também pode ouvi-las se quiser, basta clicar
aqui (chapter 2).

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Laqueadura sem corte


Um procedimento de esterilização feito sem cortes e em apenas cinco minutos está em teste no Brasil. Concebido como uma alternativa à cirurgia de laqueadura, o método é uma opção para portadoras de doenças cardíacas graves, para quem tanto a cirurgia quanto a gravidez sobrecarregariam o coração. Elas também não podem tomar anticoncepcionais (os hormônios desses remédios representam risco para elas).

A técnica consiste na colocação, pela vagina, de um aparelho feito de titânio e níquel – chamado Essure – projetado para ser introduzido nas trompas. Após três dias, forma-se uma fibrose, espécie de reação de rejeição ao corpo estranho presente na trompa. Ela acaba funcionando como um obstáculo que impede o óvulo de alcançar o local onde se encontraria com o espermatozoide.

O implante está em testes em hospitais públicos de referência em saúde da mulher do Rio de Janeiro e de São Paulo (em algumas instituições particulares do País, já está disponível). “A eficácia da esterilização é de 90%”, explica Paulo Olmos, chefe do serviço de Reprodução Humana do Hospital Brigadeiro, em São Paulo. E também é irreversível. “A mulher só poderá engravidar por meio de fertilização in vitro (junção de óvulo e espermatozoide em laboratório)”, explica o ginecologista Luciano Gibran, do Hospital Pérola Byington, em São Paulo.

A vendedora paulistana Viviane Brito, 24 anos, submeteu-se ao procedimento. Ela nasceu com uma cardiopatia que impede o sangue bombeado do coração de chegar aos pulmões. Casada há um ano, Viviane engravidou acidentalmente, mas teve de interromper a gestação para que seu coração não fosse sobrecarregado. “Passei muito mal”, conta. “Não quero sofrer novamente.”

Os especialistas acreditam que o método tem bom potencial para ser usado em programas de planejamento familiar. “Sua adoção diminuiria a fila de espera para a laqueadura”, diz o médico Olmos. A Conceptus, fabricante do aparelho, já está em negociação com o governo brasileiro. “Estamos conversando sobre a possibilidade de ampliar os testes em outras instituições públicas”, disse à ISTOÉ Spencer Roeck, presidente da companhia.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Até parece

Picasso


"Oh my god – I forgot to use my ovaries!
I’ll die miserable and alone, sobbing into my pillow.

You wish."


"Ai meu deus - esqueci de usar meus ovários!
Vou morrer triste e sozinha, chorando no meu travesseiro.
Até parece."


Li este comentário no espaço reservado aos leitores no final de um artigo de jornal que tratava dos estereótipos enfrentados por mulheres que não têm filhos.

A pessoa assinou apenas como "Teresa".

Tradução: Nicole Rodrigues

domingo, 1 de abril de 2012

Oprah Winfrey



"I could not... have had this life and lived it with the level of intensity that is required to do this show the way it's done. I'd be one of those people that the kid's coming and saying, 'Mom, you've neglected me.'... So I have no regrets about that. I have none ... not one regret about not having children because I believe that ... it is the way it's supposed to be."

"Eu não conseguiria... ter tido esta vida e a vivido com o nível de intensidade que é necessário para fazer este programa da maneira que ele deve ser feito. Eu seria uma dessas pessoas com filhos que chegam e dizem: 'Mão, você me negligenciou...'. Por isso eu não tenho arrependimentos quanto a isso. Nenhum mesmo... não me arrependo de não ter tido filhos porque eu acredito que... aconteceu do jeito que era pra ser."

Oprah Winfrey
Apresentadora de TV americana

Tradução: Nicole Rodrigues
Fonte

Papisa Joana II

Para quem acha que o papado é coisa só para homens, nada melhor do que se surpreender e inspirar lendo ou assistindo a história da corajosa Papisa Joana.


terça-feira, 13 de março de 2012

Violência obstétrica existe, sim senhor!

A única vez que toquei nesse assunto aqui no Útero Vazio (não por falta de interesse, mas por falta de tempo para pesquisar e escrever mais) um senhor de Portugal que nunca vai saber na vida o que é ser mulher, e muito menos grávida, veio dizer que as informações do post (um testemunho de uma jornalista portuguesa publicado em diversas revistas sobre um parto traumático e desumano) eram mentirosas e que isso (violência obstétrica) não existia. Eu pedi que ele compartilhasse conosco a experiência de parto dele, já que parecia tão entendido no assunto. Como a resposta nunca veio, estou achando que, pelo menos de agora em diante, ele vai pensar duas vezes antes de sair por aí "desmentindo" mulheres que criam coragem para denunciar os maus tratos aos quais são submetidas em consultas ginecológicas e procedimentos obstétricos.

A Lola publicou um guest post imperdível sobre o assunto. Leiam porque é do interesse de todas nós. E tratemos de exigir respeito de nossos ginecologistas, obstetras, anestesistas, enfermeiras e parteiras. Quem não tem postura profissional e compaixão não deveria estar na área da saúde, nem que seja de animais!


Para quem quer ler mais sobre este assunto, recomendo:

O post "Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher" escrito pela Nanda, autora do blog Mamíferas;
O post "Teste da Violência Obstétrica - Dia Internacional da Mulher - Blogagem Coletiva" escrito pela Lígia, autora do blog Cientista que virou mãe;

O blog:
Parto no Brasil

quinta-feira, 8 de março de 2012

No dia das mulheres





Queridas uterinas,

No dia das mulheres lembremos dos direitos humanos. Dos direitos das mulheres. Do direito de escolhermos ter filhos ou não ter filhos. Dos direitos das crianças. Do direito de não trazê-las ao mundo por acidente, impensadamente ou à força.

Que este dia nos faça lembrar que o útero não é o orgão que nos define, que não nascemos com a obrigação de procriar e que filhos devem, e sempre deverão, ser uma decisão consciente. Pois apenas assim eles poderão ser amados e cuidados o bastante para que se tornem bons seres humanos que, por sua vez, darão continuidade ao ciclo de criação de novos direitos e de manutenção dos direitos que já conquistamos.

Que este dia nos faça refletir sobre a ausência de muitos direitos nos países de tantas mulheres e no desperdício de tantos direitos que não são respeitados ou reivindicados por nós em nosso país.

Assistam ao vídeo acima se tiverem 5 minutinhos (ok, nove minutinhos :-), mas vale muito a pena!

Um abraço apertado!

Nicole

terça-feira, 6 de março de 2012

Livro + filmes uterino = Comer, rezar amar.

Na correria dos tempos modernos nem todo mundo encontra tempo para ler tudo o que gostaria, mas como eu sou fã de carteirinha dos livros e sei que, principalmente em se tratando de assuntos relacionados à maternidade consciente ou à opção pela não maternidade, não existe muito material à nossa disposição: faço questão de compartilhar o que já encontrei com vocês.

Decidi criar uma sequência de posts com livros (para quem consegue ou prefere ler) e adaptações para o cinema do mesmo livro (um atalho básico que pode ser bem útil e facinho de encaixar no tempo livre nos fins de semana).

Não me decepcionem, hein? Leiam ou assistam a algumas das sugestões que postarei a partir de hoje! E fiquem à vontade para me escrever contando como foi ou sugerindo mais títulos para os próximos posts (rodrigues-nicole@hotmail.com).



Nota pessoal:
Eu adoro a parte em que a melhor amiga da Liz Gilbert, a personagem principal, mostra a caixa cheia de roupinhas de bebê que ela guarda em baixo da cama e a Liz responde: "eu tenho uma caixa igual a essa, mas ela está cheia de revistas de viagem." É uma declaração tão simples, mas diz tanto sobre quem ela é e sobre quem ela quer ser. Isso, no fim das contas, é o mais importante: que aprendamos a ouvir quem somos e o que, de fato, queremos. Só assim viveremos em paz com nossas escolhas, sejam elas quais forem.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Quando é a mamãe quem vai embora



Um envelope de Denver, Colorado. A carta está endereçada a Billy Kramer e foi enviada pela Joanna.

TED
Billy!

[BILLY] Senta na sala de estar assistindo televisão, com uma rosquinha de chocolate em uma mão e o controle remoto na outra.

BILLY
(concentrado na TV)
Hum rum...

TED
Você recebeu uma carta da mamãe.

Billy imediatamente baixa o volume da televisão.

BILLY
(entusiasmado)
Quando ela vai voltar para casa?!

Ele começa a ler a carta lenta e cuidadosamente, para que Billy possa compreendê-la.

TED
"Meu querido e doce Billy: a mamãe foi embora.
Às vezes, nesse mundo, os papais vão embora e as mamães criam os seus filhinhos. Mas noutras vezes, a mamãe também pode ir embora e é o papai quem fica para cuidar do filhinho."

À medida que Ted continua a ler a carta, Billy começa a aumentar o som da televisão, usando o controle remoto...

TED
(lendo em voz alta para que Billy possa ouvi-lo)

"Eu fui embora porque preciso encontrar algumas coisas interessantes para fazer por mim mesma no mundo. Todo mundo deve fazer isso, e eu também. Ser a sua mãe foi uma dessas coisas, mas existem outras que eu preciso fazer. Eu não tive a chance de te dizer isto, e é por isso que estou escrevendo agora."

A esta altura o volume da televisão está tão alto que Ted precisa berrar para que possa ser ouvido.

TED
"Eu sempre serei a sua mamãe e sempre te amarei. Eu apenas não serei a sua mamãe dentro de casa. Mas eu serei a sua mamãe do coração. E eu..." (Ele olha para a criança, prestes a pedir que ele baixe o volume da TV.

TED
Billy.

Billy continua sentado, assistindo televisão com uma expressão intensa, quase furiosa, em seu rosto, fazendo o melhor que pode para bloquear a voz de Ted.

Ele observa o filho por um segundo, então dobra a carta cuidadosamente, e a coloca de lado.

TED
(se aproximando e baixando o volume da TV)
Está tudo bem... está tudo bem... Nós falaremos sobre isso uma outra hora.

Texto: trecho do roteiro do filme 
Kramer vs. Kramer 
Tradução: Nicole Rodrigues

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Pense novamente

Para quem acha que já alcançamos a igualdade de direitos entre os gêneros e que o feminismo é desnecessário, pense novamente. Em muitos países do mundo não ter filhos não é uma opção. E nesses lugares não basta parir, tem que parir um filho, porque o nascimento de filhas não é bem-vindo. 


Mulher é presa no Afeganistão por estrangular nora que teve 3ª bebê menina

"Uma mulher foi presa no Afeganistão por ajudar o filho a estrangular a própria esposa, que havia dado a luz a uma terceira filha. Enquanto os pais celebram o nascimento de filhos homens, as meninas são causa de frustração entre algumas famílias afegãs.

A jovem Stori, de 22 anos e mãe de três meninas, foi assassinada no sábado no vilarejo de Mahfalay, distrito de Khanabad, que fica na província de Kunduz, no sudeste afegão.

O delegado da polícia local, Sufi Habib, disse que Stori teve os pés amarrados pela sogra, Wali Hazrata, enquanto seu próprio marido a estrangulava.
O corpo da afegã foi encontrado no mesmo dia por um dos vizinhos, que chamou a polícia.

O marido está foragido e não teve o seu nome divulgado. Acredita-se que o homem pertença à milícia Arbaki.
Autoridades locais disseram à BBC que o marido está sob proteção de um grupo armado ilegal, sob amparo de políticos no Afeganistão.

Direitos das mulheres

Ativistas de direitos humanos divulgaram o caso à imprensa afegã. A diretora do escritório de Defesa da Mulher de Kunduz, Nadira Gya, condenou o incidente.

"Foi um crime brutal cometido contra uma mulher inocente", disse. Nadira acusou as milícias de diversos ataques contra mulheres no Afeganistão.

Líderes religiosos e tribais também condenaram o assassinato da jovem. Eles disseram que a morte foi um ato de ignorância e um crime contra o Islã, a humanidade e as mulheres, e pediram punição rigorosa à sogra e ao marido envolvidos no crime.
A terceira filha de Stori, que hoje tem dois meses, não se feriu no incidente."


Fonte:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/01/120130_sogra_afeganistao_dg.shtml

sábado, 28 de janeiro de 2012

Capacidade de amar



"Por que apenas as mulheres que dão à luz devem ter o direito ao papel de mãe? Não seria o caso de todos nós, incluindo os homens, termos a capacidade de amar e de cuidar de crianças, independente da nossa ligação biológica com elas?"
Citação do livro "Mad to be a mother"
da autora Brigid McConville

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Mil irmãs



Nós somos apenas irmãs correndo em um campo, e nós devemos correr – correr e dançar – até o fim.

Zainab Salbi
(prefácio do livro "A thousand sisters". Tradução livre: "Mil irmãs")



No site oficial da campanha de conscientização "A thousand sisters", criada após o lançamento do livro homônimo de Lisa Shannon, você encontrará o seguinte texto:

O Congo Oriental é frequentemente chamado de “O pior lugar no mundo para ser mulher.” A violência sexual é pandêmica: mais de 400.000 mulheres foram estupradas por estranhos em apenas um ano (2006-2007), um tempo em que muitos especialistas se referiam ao país como “pós-conflito” ou como “relativamente estável”. Mais estável para quem? Estupros coletivos, escravidão sexual e torturas são comuns. Ainda assim a comunidade internacional respondeu apenas com esforços fragmentados, em vez de intervir de forma séria. Quinze anos depois, nós ainda precisamos de um plano coordenado, coeso e amplo para o Congo... e precisamos agora!
Podemos ajudar as mulheres do Congo de diversas formas:
- lendo o livro "A thousand sisters"
- emprestando ou dando o livro de presente para parentes e amigos
- repassando informações sobre o livro e a guerra do congo via e-mail ou postando sobre este assunto nos nossos blogs
- participando da
campanha de conscientização sobre a guerra no Congo
-
patrocinando uma irmã no Congo:

Nicole Rodrigues

domingo, 15 de janeiro de 2012

Unidas

Olá querida uterinas,

Depois de um fim de ano bastante tumultuado eu finalmente consegui aparecer para desejar um feliz 2012 a todas vocês! Mas em vez de apenas desejar um monte de coisas boas, que eu sei que vocês merecem, eu preferi fazer diferente e começar este ano novo citando e compartilhando muitas iniciativas boas na esperança de que elas continuem a existir e que se multipliquem graças ao nosso esforço.

Então eu vim trazendo um presentinho: uma lista de links especialíssimos. Trata-se de uma seleção de organizações, instituições e campanhas que contribuem imensamente para que sejamos cada vez mais livres. Todas elas têm em comum a luta em prol de nossas irmãs, mães, filhas e amigas que são vítimas de abuso sexual, violência doméstica, tráfico humano ou ausência absoluta de qualquer direito de expressão.

A melhor maneira de ajudar essas instituições é:

- visitar alguns destes links e aproveitar o enriquecedor conteúdo publicado
- divulgar o que encontrarem e julgarem relevante com seus amigos e familiares
- buscar oportunidades de empregos ou de voluntariado na instituição que mais lhe tocar o coração


Centros de referência de atendimento à mulher
A campanha das 50 milhões de desaparecidas

Centro de documentação e arquivo feministas


Secretaria da mulher do estado de Pernambuco

SOS Mulher e família


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Lionel Shriver


 "For me, establishing myself as a writer was so important, and took so long, that it consumed my entire reproductive lifetime... I didn't feel I could afford the distraction and emotional energy that it would have taken to try and raise a family at the same time."


“Para mim, me estabelecer como escritora era tão importante, e levou tanto tempo, que consumiu toda a minha fase reprodutiva... Eu não senti que eu conseguiria arcar com a distração e energia emocional necessárias para tentar e cuidar de uma família ao mesmo tempo.”


Lionel Shriver
Escritora americana

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Mae West



"I never wanted children. I thought it would change me - mentally, physically and psychologically. I was always too absorbed in myself and I didn't have time for anybody else. I was talked into marriage once and maybe it was a good thing--I might have gotten married 10 times if I had been free all those years. But you know, a woman becomes a different person when she gets married. She lives for her husband and her family. I wanted to live for myself."

"Eu não quis ter filhos. Eu achava que isso mudaria quem eu sou - mentalmente, fisicamente e psicologicamente. Eu estava sempre tão absorta em mim mesma que não tive tempo para mais ninguém. Eu fui convencida a casar uma vez e talvez tenha sido bom - já que eu poderia ter casado umas 10 vezes se eu estivesse livre todos aqueles anos. Mas, sabe, uma mulher se transforma em uma pessoa diferente quando ela casa. Ela vive para o marido e para a família. Eu queria viver para mim mesma." 

Mae West
Atriz e roteirista americana

Tradução: Nicole Rodrigues

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Quando os avós viram pais


Texto: Com a crise, avós espanhóis sofrem estresse por excesso de responsabilidade com netos

Autora: Anelise Infante

Cuidar dos netos pode ser um prazer, mas também um problema. Um relatório espanhol indica que, desde o início da crise econômica em 2009, o número de avós que passaram a cuidar dos netos para ajudar o bolso dos filhos aumentou 47%. E, com isso, subiu o nível de estresse entre os mais velhos.

Patologias como ansiedade e depressão foram detectadas por excesso de responsabilidades no estudo Avôs e avós para tudo - Percepções em relação à educação e cuidado dos netos, apresentado recentemente pela Fundação Obra Social Caixa Madri.

Diante dos cortes de gastos dos pais com creches, atividades extraescolares e babás, os avós viraram serviços de primeira necessidade. Assim, 50% dos maiores de 65 anos na Espanha cuidam de seus netos diariamente; 45% o fazem todas as semanas.

Essa responsabilidade quintuplicou em menos de uma década. Em 1993, apenas 9,5% dos avós tinham a tarefa de ocupar-se dos netos. Atualmente, duas em cada três famílias apelam para o que os sociólogos definem como "avós-pais" ou "avós-babás".

Em outros países, como a Grã Bretanha, uma de cada quatro famílias recorre aos avós para o cuidado das crianças.

O problema, segundo o informe, é que na Espanha "estão ocorrendo muitos casos de abusos".

'Angustiados'

Há avós que precisam eles mesmos de cuidados e que afirmam que se sentem "angustiados e utilizados por filhos que lhes delegam excessiva responsabilidade no cuidados dos netos".

"Por um lado, reivindicam seus direitos de serem avós, não educadores. Demandam que haja limites em relação as suas obrigações, porque existe um temor de interferir nas estratégias educativas dos pais. Não sabem se aplicam seus critérios ou os dos seus filhos", disse à BBC Brasil o coordenador da pesquisa e psiquiatra, Eusébio Megías.

"E, por outro, temem que depois de cuidar de filhos e netos durante toda a vida, ninguém se preocupe por cuidar deles, acrescentou ele."

"Por um lado, reivindicam seus direitos de serem avôs, não educadores. Demandam que haja limites em relação as suas obrigações, porque existe um temor de interferir nas estratégias educativas dos pais. Não sabem se aplicar seus critérios ou os dos seus filhos "

Eusébio Megías, coordenador da pesquisa e psiquiatra

Segundo as conclusões do relatório, os avós se sentem divididos entre o prazer de passar tempo com seus netos e os excessos de exigências de seus filhos nestas tarefas.

Nestas circunstâncias estão aumentando as consultas médicas por estresse, ansiedade e depressão, de acordo com as estatísticas da Sociedade Espanhola de Geriatria e Gerontologia (SEGG) feitas para o Ministério da Saúde.

Para a SEGG, "o fato de 50% dos maiores de 65 anos dedicarem em média seis horas por dia de maneira forçada ao cuidado dos netos, negligenciando suas próprias necessidades, está causando problemas nervosos, porque muitos avós se sentem sobrecarregados".

Cultura e expectativa de vida


Além da crise econômica, o aumento da expectativa de vida e a cultura de ajuda familiar também são fatores que colocam os avós espanhóis nesta nova realidade de educadores por imposição. As espanholas lideram os índices europeus de expectativa de vida, com 84,9 anos, sendo que a média continental é de 82,4; entre os homens espanhóis, 78,7 contra 76,4 anos de média na Europa) .

Ao contrário de vários países ocidentais europeus, 56% dos espanhóis acham que os parentes devem ser a primeira opção na hora de pedir apoio financeiro e ajuda com o cuidado de algum integrante da família.

A taxa cai para 20% na França, 32% na Alemanha e não chega aos 10% nos países escandinavos.

"(Isso ocorre) provavelmente porque nestas sociedades há mais ajuda social. A questão é que, na Espanha, os avós passam mais horas com os netos do que a média europeia. Aí se produz um desajuste", afirmou à BBC Brasil a investigadora Maria Teresa López.

Paulino Castells, autor de 'Queridos Abuelos', diz que, se avós 'fizessem greve, país entraria em colapso'

Professora de Economia Aplicada da Universidade Complutense de Madri e co-autora da pesquisa Dupla dependência: avós que cuidam de netos na Espanha, López disse que os idosos são os mais adequados para substituir os pais no cuidado de netos, mas com pré-condições.

"Precisam de agradecimento pelo esforço, que os filhos não abusem de suas possibilidades e que as pautas de atuação sejam negociadas, porque eles devem ter suas necessidades também atendidas e valorizadas."

O psiquiatra Paulino Castells, uma das maiores autoridades nacionais no assunto com 18 livros publicados, acredita que o papel dos avós nos tempos de crise é tão importante que, "se fizessem greve, o país entraria em colapso".

O psiquiatra e avô de três netos disse à BBC Brasil que "está havendo uma mudança hierárquica. Pais que procuram refúgios no lar da infância e se transformam em irmãos mais velhos de seus filhos. Isso é um erro".

Fonte da imagem: http://projectcyrano.blogspot.com/2011/05/avos.html
Fonte do texto: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/11/111125_espanha_avos_ai.shtml

sábado, 12 de novembro de 2011

Qual o sentido da maternidade, para as maternidades?

A maternidade traz consigo tanta bagagem. Tantos desafios físicos, psicológicos, emocionais e financeiros que é absurdo submeter as mulheres grávidas ao desafio do (des)atendimento médico em pleno dia de parto. Será que já não chega o medo, a ansiedade, o nervosismo, a expectativa e o desconforto que naturalmente serão sentidos nesse dia e nos 9 meses que o antecederam? Para quê infligir mais dor a quem se encontra em uma situação tão vulnerável e potencialmente perigosa? Que enfermeiras e médicas são essas que dão às costas à ética e à essência da profissão que escolheram e usam as ferramentas de alívio e cura para ampliar o sofrimento de mulheres que contam com elas em um dia tão importante?

É nossa obrigação denunciar todo e qualquer destrato sofrido por nossas irmãs, primas, sobrinhas, tias, mães, filhas e amigas. É nosso dever cuidarmos uma das outras. É nossa responsabilidade não fechar os olhos para o sofrimento alheio. E com isso, querida uterinas, só temos a ganhar. Por que se não cuidarmos umas das outras, quem cuidará?



Texto: Qual o sentido da maternidade, para as maternidades?
Autora: Rosana Antonio

Foi a primeira pergunta que me fiz ao entrar na Maternidade Alfredo da Costa(MAC) no dia 05 de Junho de 2009.

Minha bolsa rompeu em casa mais ou menos às 20h do dia 05 de Junho. Uns trinta minutos depois cheguei na MAC, onde fui atendida pela enfermeira de plantão.

Eu tinha sonhado com esse dia, esperava algo do tipo: “Olá, então chegou a sua hora?” Mas na verdade fui recebida com um: “Dispa-se e deite-se.”
Pediu também as minhas análises e com elas ficou se abanando como se estivesse na menopausa. Em seguida perguntou: “O pai do bebé é conhecido?” Pensei: “Pra quem?” Mas respondi: “Sim.” Ela continuou as perguntas... “É branco?” Eu, sem entender disse: “Como?” Ela continuou... “É branco?, cigano?, indiano? africano?” Respondi: “Branco.”

Na mesma sala, entrou uma colega fazendo um comentário xenófobo sobre uma mulher negra que tinha acabado de sair dali:

“E agora, o que ela fez com a escurinha?” A Sª Enfermeira que me atendeu lançou mais um comentário xenófobo: “Sabe-se lá, parece que foi falar com ela. Esta ai é mesmo a boa samaritana.” As duas enfermeiras protestavam a gentileza e a amabilidade da recepcionista com as grávidas naquele dia.

A colega continuou ali falando com a enfermeira que estava me atendendo. Esta quando me viu despida veio em minha direcção e fez um toque violento.

Quando ela terminou, desceram uns dois litros de água pelo chão. Ela disse-me: “O filha, respira para parede, não tenho eu que levar com isso. Levanta-te e comece a caminhar até chamarem-na para o quarto.” Em seguida, gritou: “Auxiliare, venha limpar mais uma porcaria”. Eu achei tudo muito macabro, mas a Leticia estava chegando e eu estava feliz.

Uns 20 minutos depois chamaram-me para o quarto 6. Minha mãe chegou meia-hora depois, o que me deixou muito mais tranquila. Estivemos ali, ela a consolar-me pelos toques que faziam de hora em hora, mas nenhum deles, foi como o da Srª Enfermeira que me recebeu. Eu a perder água sem parar, e nada de dilatação, mas tinha um consolo, duas enfermeiras que pareciam não fazer parte da equipa da maternidade.

Amélia e Sónia, foram super gentis. Chegavam, faziam um toque normal e diziam: “Vamos Rosana, queremos fazer o seu parto, e será aqui neste quarto que a Leticia vai nascer.”

No dia seguinte, iniciaram a prática para induzir as tais contracções. Elas começaram logo, mas a dilatação era lenta. Avisavam-me sempre dos centímetros que aumentavam e ao quinto ou sexto chegou a médica para fazer a epidural. Por cinco minutos não senti mais as dores. Bom demais para ser verdade. Pois é. Em seguida, comecei a sentir uma dor fortíssima do lado direito mesmo no “pé da barriga”. Depois de sentir a tal dor mais umas duas horas, volta a anestesista. Esta, se apercebeu que tinha ficado uma “janela aberta”. Foi esta a sua expressão. E mais: que não poderia mais mexer na minha coluna. Bem, fiquei ali com esta tal “janela aberta” que mais parecia “a porta do inferno”.

Aos 10 cm de dilatação e quase 24 horas de trabalho de parto, entra a Drª Graça e uma grande equipa, a mesma que passava por lá a cada hora para fazer o toque. Depois de muito tempo ela percebeu que o parto não poderia ser normal. Então começou a falar com a equipa sobre um parto a “ventosa”. Perguntei o que era o parto a ventosa, ela não quis dar nenhuma explicação dizendo que sabia o que estava fazendo.

Minha mãe insistiu, dizendo que precisava avisar ao pai da criança. Naquele momento, Drª Graça pediu que acompanhassem minha mãe a recepção e que me levassem para a sala operatória. No elevador, escutei os comentários e a ira da Drª Graça, que dizia: “Como assim, avisar o pai da criança? Se quisessem explicações médicas, deveriam ter ido para uma clínica privada. Sei eu o que eu faço, não devo dar explicações.”

Achei o comentário desprezível, ainda mais tratando-se da “melhor maternidade do país”.
Eu, tentando ser simpática, em meio as tantas dores e preocupada com o humor da Drª Graça, que iria fazer o meu parto, disse: “Srª Drª Graça, minha mãe teve uma péssima experiência com o método forceps, é só isso. E o que ela pretendia era perceber que processo é este que vão usar comigo.” Ela não deu respostas.

Entramos na sala e a mesma anestesista me fez mais uma dose no cateter. No mesmo instante, a Drª Graça começou a discutir com a colega se fazia a ventosa ou a cesariana. Uma dizia para fazer a cesariana, outra dizia que já não dava mais e que fizessem logo a ventosa. Eu, em pânico, disse: “Mas me parece que vocês não estão de acordo.” Esta minha frase deixou a Drª Graça e a anestesista furiosas. Esta última disse que não ficava mais ali e realmente, fez a sua dose e foi embora. E a Drª Graça disse que a vontade que tinha, era de não fazer o parto. Ficaram discutindo o tempo todo. A Drª Graça se sentia ofendida e não conseguia esconder, perdeu mais uma vez o controle e, quando retirou a Leticia, disse: “Berra Leticia, se não a sua mãe vai fazer queixas de nós.”

Olhei para minha filhinha tão linda e indefesa e pensei: “Meu Deus, como pode uma médica dizer a uma criança para berrar.” Vivi em quatro países antes de Portugal, e em nenhum deles as crianças berram. Esta expressão é usada para referir-se aos animais. Mas parece que, para a Drª Graça, é também usada para as crianças, em Portugal.

Em silêncio, pedi desculpas para minha filhinha, que ela aguentasse firme e que muito em breve, sairíamos daquele lugar macabro.

Depois de retirarem a Leticia, se depararam com mais um problema, a placenta não se descolava. Em meio a tanta perda de sangue comecei a ter uma crise cianótica, mas me mantive lúcida e acordada, escutando o chorinho da minha filha. A Drª Graça tentava arrancar a placenta com toda sua força e com as unhas encravadas em minha barriga. A cada minuto perguntava se me fazia mal e eu sempre dizia que sentia as suas unhas. Aguentei ainda uns 30 minutos, que me pareceram longos, para a retirada da placenta. A Drª Graça jogou a placenta em cima de uma mesa ao meu lado. Fiquei com uma sensação estranhíssima, como a de estar fazendo parte de um abate de vacas, já que a própria Drª Graça pediu que minha Leticia berrasse.

Terminando sua função, a Drª Graça pediu a sua auxiliar que me fizesse os pontos. Para a minha sorte, vi um rosto conhecido. Tratava-se da Drª Rita. Era uma jovem médica que dias antes tinha me atendido na primeira consulta na MAC. Ela também me reconheceu e, diferente da Drª Graça, ela fez seu trabalho em silêncio e, quando terminou me disse: “Rosana, ficou muito bom. Você vai ficar bem logo. Muitas felicidades!”

Em meio aos tantos demónios existem sempre alguns anjos. Ainda bem!

Minhas visitas mensais na gravidez foram acompanhadas pela Drª Ilda Dias, a Enfermeira Cidália e toda a equipa de trabalho do posto de saúde de São João, extensão Júlia Moreira.

Foi uma escolha minha e do meu marido, optar pelo sistema público, depois de conhecer o profissionalismo daquela inteira equipa. Elas tinham nos cativado de uma certa maneira, que cheguei a dar uma entrevista para um telejornal sobre a qualidade dos serviços públicos de saúde em Portugal. Eis o porque da minha surpresa na MAC, considerada essa, a melhor maternidade do país.

Eu, em meio a discussão, desequilíbrio e falta de postura da Drª Graça, que de graça tem pouco, cheguei a repetir isso: “Estou aqui não somente por ser um sistema público, mas porque a MAC é conhecida como a melhor maternidade do país.” Pois é. Se é assim. Como será a pior? E, para já, deixo-vos mais uma pergunta: Qual o sentido da maternidade para as maternidades???

O artigo da jornalista Rosana Antonio foi publicado parcialmente, na Revista “O Brasileirinho”, Revista Pais e Filhos (Portugal). Em Alguns jornais e revistas brasileirias em diferentes estados. E integralmente, no Quaderno Maternus (Itália). Após a sua denúncia, outras cinco mulheres manifestaram terem sido mal tratadas em hospitais e maternidades portuguesas. Denuncie você também!

Fonte do texto: http://quadernomaternus.blogspot.com/
Foto: http://olhares.aeiou.pt/reportagem_maternidade__18_foto158111.html?nav1

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