sábado, 17 de agosto de 2013

Mariela Castro



“Não podemos aceitar migalhas em direitos sexuais e reprodutivos.”

Mariela Castro


NOTA:
O blog "Maria da Penha neles" traz uma entrevista interessante com a sexóloga Mariela Castro (filha do ex-presidente cubano, Raul Castro). Leia aqui

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A questão do aborto



O Sr. Drauzio Varella realmente é de outro mundo. Porque deste não pode ser. Um homem mais esclarecido sobre a questão do direito ao corpo do que tantas e tantas mulheres que continuam a permitir que seus corpos sejam controlados por outras pessoas? Não pode ser. Não pode, mas é.

Leiamos todos as palavras dele, quem sabe assim a lucidez e a compaixão toquem nossos corações, quase sempre de pedra.

"Desde que a pessoa tenha dinheiro para pagar, o aborto é permitido no Brasil. Se a mulher for pobre, porém, precisa provar que foi estuprada ou estar à beira da morte para ter acesso a ele. Como consequência, milhões de adolescentes e mães de família que engravidaram sem querer recorrem ao abortamento clandestino, anualmente.

A técnica desses abortamentos geralmente se baseia no princípio da infecção: a curiosa introduz uma sonda de plástico ou agulha de tricô através do orifício existente no colo do útero e fura a bolsa de líquido na qual se acha imerso o embrião. Pelo orifício, as bactérias da vagina invadem rapidamente o embrião desprotegido. A infecção faz o útero contrair e eliminar seu conteúdo.

O procedimento é doloroso e sujeito a complicações sérias, porque nem sempre o útero consegue livrar-se de todos os tecidos embrionários. As membranas que revestem a bolsa líquida são especialmente difíceis de eliminar. Sua persistência na cavidade uterina serve de caldo de cultura para as bactérias que subiram pela vagina, provoca hemorragia, febre e toxemia.

A natureza clandestina do procedimento dificulta a procura por socorro médico, logo que a febre se instala. Nessa situação, a insegurança da paciente em relação à atitude da família, o medo das perguntas no hospital, dos comentários da vizinhança e a própria ignorância a respeito da gravidade do quadro colaboram para que o tratamento não seja instituído com a urgência que o caso requer.

A septicemia resultante da presença de restos infectados na cavidade uterina é causa de morte frequente entre as mulheres brasileiras em idade fértil. Para ter ideia, embora os números sejam difíceis de estimar, se contarmos apenas os casos de adolescentes atendidas pelo SUS para tratamento das complicações de abortamentos no período de 1993 a 1998, o número ultrapassou 50 mil. Entre elas, 3.000 meninas de dez a quatorze anos.

Embora cada um de nós tenha posição pessoal a respeito do aborto, é possível caracterizar três linhas mestras do pensamento coletivo em relação ao tema.

Há os que são contra a interrupção da gravidez em qualquer fase, porque imaginam que a alma se instale no momento em que o espermatozoide penetrou no óvulo. Segundo eles, a partir desse estágio microscópico, o produto conceptual deve ser sagrado. Interromper seu desenvolvimento aos dez dias da concepção constituiria crime tão grave quanto tirar a vida de alguém aos 30 anos depois do nascimento. Para os que pensam assim, a mulher grávida é responsável pelo estado em que se encontra e deve arcar com as consequências de trazer o filho ao mundo, não importa em que circunstâncias.

No segundo grupo, predomina o raciocínio biológico segundo o qual o feto, até a 12ª semana de gestação, é portador de um sistema nervoso tão primitivo que não existe possibilidade de apresentar o mínimo resquício de atividade mental ou consciência. Para eles, abortamentos praticados até os três meses de gravidez deveriam ser autorizados, pela mesma razão que as leis permitem a retirada do coração de um doador acidentado cujo cérebro se tornou incapaz de recuperar a consciência.

Finalmente, o terceiro grupo atribui à fragilidade da condição humana e à habilidade da natureza em esconder das mulheres o momento da ovulação, a necessidade de adotar uma atitude pragmática: se os abortamentos acontecerão de qualquer maneira, proibidos ou não, melhor que sejam realizados por médicos, bem no início da gravidez.

Conciliar posições díspares como essas é tarefa impossível. A simples menção do assunto provoca reações tão emocionais quanto imobilizantes. Então, alheios à tragédia das mulheres que morrem no campo e nas periferias das cidades brasileiras, optamos por deixar tudo como está. E não se fala mais no assunto.

A questão do aborto está mal posta. Não é verdade que alguns sejam a favor e outros contrários a ele. Todos são contra esse tipo de solução, principalmente os milhões de mulheres que se submetem a ela anualmente por não enxergarem alternativa. É lógico que o ideal seria instruí-las para jamais engravidarem sem desejá-lo, mas a natureza humana é mais complexa: até médicas ginecologistas ficam grávidas sem querer.

Não há princípios morais ou filosóficos que justifiquem o sofrimento e morte de tantas meninas e mães de famílias de baixa renda no Brasil. É fácil proibir o abortamento, enquanto esperamos o consenso de todos os brasileiros a respeito do instante em que a alma se instala num agrupamento de células embrionárias, quando quem está morrendo são as filhas dos outros. Os legisladores precisam abandonar a imobilidade e encarar o aborto como um problema grave de saúde pública, que exige solução urgente.

Autor: Drauzio Varella
Fonte: Blog oficial doDr. Drauzio Varella

domingo, 11 de agosto de 2013

Desconstrução do mito da maternidade perfeita - parte I (O corpo após o parto).







Uma das bases da maternidade consciente é a desconstrução dos mitos relacionados a ela. O mito do instinto materno como sendo inato e universal, da gravidez sem incômodos, do parto sem dor, do amor compulsório e imediato pelo bebê... São tantos os mitos que o melhor mesmo é irmos por parte. Não para desmotivar, chocar ou preocupar quem deseja ser mãe, mas sim para informar e oferecer fatos e imagens mais próximas das várias realidades enfrentadas por mulheres que optam por se tornarem mães, garantindo assim que um número cada vez maior de mulheres tenha acesso a informações pertinentes sobre os vários aspectos da maternidade a fim de poderem tomar uma decisão consciente sobre uma vida com ou sem filhos.

Um desses mitos é o de que o corpo não passa por uma transformação drástica durante a gravidez; de que o que muda mesmo são apenas os quilos a mais e que depois é só fazer dieta e emagrecer. E, hoje em dia, mas do que nunca, as mulheres sofrem a pressão de apresentarem corpos esbeltos e perfeitos pouco depois de darem à luz. Mas a verdade é que as profundas transformações que uma gravidez pode impor ao corpo feminino (cicatrizes, estrias, flacidez, envelhecimento precoce, dismorfia...) nem sempre são reversíveis. E pouco se fala nelas, porque elas raramente são discutidas e compartilhadas pelas mulheres. Quase sempre por vergonha. 

Pensando nisso, a fotógrafa americana Jade Beall, se propôs a colaborar para o processo de redefinição do conceito do corpo da mulher bonita.

Segue a reportagem da BBC sobre o projeto dela: 
Um dia ela entrou em seu estúdio com seu bebê de cinco semanas, tirou a roupa, e fez uma série de fotos. Era um corpo que ela não conhecia. Era um formato de corpo que ela nunca tinha tido antes da gravidez. E ela não gostou muito do que viu. Mas Beall decidiu publicar as fotos em seu blog de fotografia, com o intuito de compartilhar um outro lado da maternidade, que não costuma ser mostrado.

"Tantas pessoas me dizem, 'Oh, eu nunca vi um corpo como esse. Não quero que as pessoas achem as minhas fotos de mau gosto. Quero que elas olhem e digam, 'Oh, essa é uma mulher extremamente humana, ou, essa é uma mulher que tem cicatrizes e linhas com histórias para contar. Meu objetivo é ajudar essas mães a se sentirem dignas de serem chamadas de belas," concluiu Beall.

A mídia está cheia de imagens de corpos femininos. Mas não desses tipos de corpos. Por isso Beall fotografou mais de 70 mães que irão aparecer no livro, A Beautiful Body (Um Belo Corpo, em tradução livre), que deve ser lançado em janeiro de 2014. Ela não usou maquiadores, e não há nenhum tipo de retoque nas fotos.

O projeto A Beautiful body tem um lindo site, onde você poderá ler e ouvir histórias de mulheres que compartilharam informações sobre as mudanças que observaram em seus corpos após se tornarem mães e o pacto de silêncio e vergonha imposto até mesmo pelas pessoas mais próximas.

Que medo é esse?



Para quem acha que permitir que mulheres escolham se querem ou não ter filhos significa a extinção da raça humana, eu sugiro deixar a bíblia de lado e começar a ler os jornais.
 
Orfanatos lotados de crianças abandonadas, abrigos temporários para crianças vítimas de abusos sexuais ou violência doméstica cometida pelos próprios pais, falta de comida e moradia para milhões de pessoas em todo o mundo. Continuar tendo filhos indesejados é a solução? Porque quando desejados, gerados, e, então, bem cuidados, tudo muito bem. Mas e quando trazidos a este mundo à força para serem tratados como, ou pior, do que cachorros?

Será que o caminho não é lutar para garantir que cada pessoa tenha a chance de decidir se quer ou não trazer mais alguém para este mundo e se responsabilizar por esta mesma pessoa por boa parte de sua vida?  

E que medo de extinção mais infundado é esse, quando o nosso planeta nunca teve uma população humana maior do que a atual, em toda a sua história? Sete bilhões de pessoas vivendo em um mundo com cada vez menos recursos é a solução? Morreremos todos de fome, de sede, de doenças causadas pela ganância e pela ignorância, espremidos por falta de espaço, com a ideia fixa de que escolher não ter filhos nos levará à extinção?


Por que não nos permitirmos evoluir a ponto de pensarmos além de páginas defasadas cujo texto arcaico nos previne de olhar a realidade ao nosso redor e de respeitar as escolhas e vontades alheias? Desde quando permitir que quem não quer ser pai ou mãe não o seja, significa influenciar os que desejam esta experiência a abrir mão dela? Liberdade de escolha, minha gente, não é influência. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra bem diferente. Cada um tem o direito de pensar por si, mas, certamente, não pelo outro.


Que medo é esse de que o outro pense e decida por si só; de que as mulheres descubram por si mesmas o que desejam ou não para suas vidas. Que fobia é essa de reconhecer que as mulheres têm direito aos seus próprios corpos? Que hipocrisia é essa de que fazer filhos sem pensar ou desejar é permitido, mas não ter filhos quando não os desejamos não é?
Que ultraje é esse que as mulheres que escolhem não ter filhos causam? A escolha delas não afeta ninguém além delas mesmas e não diz respeito a mais ninguém. Tenha você um filho, se o quer tanto. Este sim é o caminho natural.

Filho deve ser sempre uma escolha e não uma obrigação. Filho é para quem o deseja, quando o deseja. É para quem está interessado na experiência de ser mãe/pai e disposto a fazer um bom trabalho.


Podemos ensinar uma mulher a se tornar uma boa mãe. Mas, em nenhuma circunstância, podemos forçá-la a se tornar mãe. E enquanto não aprendermos a ceder o direito individual de reprodução a cada membro de nossa sociedade, não colheremos os frutos coletivos de dividirmos este planeta com pessoas sãs e satisfeitas com o estilo de vida que escolheram. 

Nicole Rodrigues

domingo, 14 de julho de 2013

Ter filhos traz mesmo felicidade?

Para mim está claro que não existe uma fórmula universal para a felicidade, já que o que pode ser sinônimo de felicidade para você, pode não ser para mim e vice-versa. Por isso, raramente acredito nesses estudos do tipo: "o que torna as pessoas mais ou menos felizes", como se tudo se encaixasse em questões de múltiplas escolhas, com respostas de uma palavras ou uma linha. Porém, achei interessantíssimo a Revista IstoÉ ousar discutir um dos maiores tabus de nossa sociedade: o de que filhos sempre é sinônimo de felicidade para quem os tem.


Reportagem da Revista Época
Por que a discussão realista sobre os problemas da paternidade causa tanto desconforto – e como ela pode ensinar os casais a sofrer menos.
É 1 hora da madrugada. Um choro estridente desperta a ex-judoca olímpica Danielle Zangrando, de 33 anos. Desde que levou Lara do hospital para casa, as mamadas a cada três horas impedem o sono de antes. Ela pula da cama e oferece à filha o peito. Depois, troca a décima fralda daquele dia, embala a bebê no colo, caminha com ela em busca de uma posição que a faça parar de chorar. O choro prossegue. Daniele tenta bolsa de água quente e gotinhas de remédio. Nada de o berreiro cessar. Duas horas depois, mãe e filha formam um coro: Danielle também cai em prantos, desesperada. É a primeira cólica de Lara, com 20 dias de vida. O pai, Maurício Sanches, funcionário público de 48 anos, se sente impotente. Está frustrado e desconta a frustração na mulher: “Você comeu algo que fez mal a ela?”. A partir de então, Danielle se privará também do chocolate. Já desistira do sono, da liberdade, do trabalho como comentarista de esporte. Na manhã seguinte, ainda exausta da maratona noturna, retomará a mesma rotina, logo cedo: amamentar, dar banho, trocar fralda, botar para dormir. “Ninguém sabe de verdade como é esse universo até entrar nele”, diz Danielle. Hoje, Lara está com 2 anos. As noites não são tão duras quanto costumavam ser. Mas Danielle e Sanches ainda dizem que ter filhos é uma missão muito mais difícil do que eles haviam imaginado.

Eis um problema: a paternidade, que deveria ser o momento mais feliz da vida dos casais – de acordo com tudo o que aprendemos –, na verdade nem sempre é assim. Ou, melhor dizendo, não é nada disso. Para boa parte dos pais e (sobretudo) das mães, filhos pequenos são sinônimo de cansaço, estresse, isolamento social e – não tenhamos medo das palavras – um certo grau de infelicidade. Ninguém fala disso abertamente. É feio. As pessoas têm medo de se queixar e parecer desnaturadas. O máximo que se ouve são referências ambíguas e cheias de altruísmo aos percalços da maternidade, como no chavão: “Ser mãe é padecer no Paraíso”. Muitas que passaram pelo padecimento não se lembram de ter visto o Paraíso e, mesmo assim, realimentam a mística. Costumam falar apenas do amor incondicional que nasce com os filhos e das alegrias únicas que se podem extrair do convívio com eles. A depressão, as rachaduras na intimidade do casal, as dificuldades com a carreira e o dinheiro curto – disso não se fala fora do círculo mais íntimo e, mesmo nele, se fala com cuidado. É tabu expor a própria tristeza numa situação que deveria ser idílica.

A boa notícia para os pais espremidos entre a insatisfação e a impossibilidade de discuti-la é que começa a surgir um movimento que defende uma visão mais realista sobre os impacto dos filhos na vida dos casais. Seus adeptos ainda não marcham nas ruas com cartazes contra a hipocrisia da maternidade como um conto de fadas. Mas exigem, ao menos, o direito de falar publicamente e com franqueza sobre as dificuldades da situação, sem ser julgados como maus pais ou más mães por se atrever a desabafar. Por meio de livros e, sobretudo, com a ajuda da internet, eles começam a falar claramente sobre os momentos de angústia, tédio e frustração que costumam acompanhar a criação dos filhos. Nas palavras da americana Selena Giampa, uma bibliotecária de 35 anos, dona do blog Because Motherhood Sucks (A maternidade enche...), “a maternidade está cheia de momentos de pura felicidade e amor. Mas tudo o que acontece entre esses momentos é horrível. Amo ser mãe, de verdade. Mas tenho de dizer a vocês que, assim como qualquer outro emprego, muitas vezes eu tenho vontade de pedir as contas”. Com uma notável diferença: ninguém pode se demitir do emprego de mãe ou de pai. Ele é vitalício.

O melhor exemplo dessa nova maternidade é o livro Why have kids (Por que ter filhos), sem previsão de lançamento no Brasil, escrito pela jornalista americana Jessica Valenti, de 34 anos. Durante a gravidez de sua primeira e única filha, Jessica teve um aumento perigoso de pressão arterial. Layla nasceu prematura, pesando menos de 1 quilo. Passou oito semanas na incubadora do hospital. Ao longo dos 56 dias em que viu a filha sofrer dezenas de procedimentos invasivos, Jessica refletiu sobre como idealizara a experiência de ser mãe. Seu livro parte daí para criticar a cobrança pela maternidade perfeita, uma espécie de pano de fundo imaginário contra o qual as mães de verdade comparam suas imensas dificuldades e seus inconfessáveis sentimentos negativos. “Não falar sobre a parte ruim da maternidade só aumenta o drama dos pais e as expectativas irrealistas de quem ainda não é”, disse Jessica a ÉPOCA.

Compartilhar abertamente as agruras pode funcionar como válvula de escape. As amigas Trisha Ashworth e Amy Noble, também americanas, dividiram muitas angústias por telefone antes de escrever o livro Eu era uma ótima mãe até ter filhos, lançado no Brasil pela editora Sextante. Com bom humor, elas fazem reflexões do tipo: “Sou uma mãe de quinta categoria por ter gritado com uma criança de 4 anos depois de ela se levantar 12 vezes numa noite?”. Assim como elas, há muita gente produzindo conteúdo crítico para desconstruir a maternidade como um perfeito comercial de margarina – inclusive no Brasil. Os textos ácidos do blog Ombudsmãe, cujo nome faz trocadilho com o profissional contratado para criticar a empresa em que trabalha, são um exemplo. “Duro mesmo é quando surge um chato na forma de filho”, diz um desses textos. “Há os que obrigam os pais a usar cinto de segurança. Os que choram diante do leitãozinho assado. Os que cheiram o hálito da mãe, tornando-se legítimos representantes da patrulha antifumo instalados dentro da nossa própria residência.” Outro é o site Mamatraca, que publica diariamente vídeos que lidam com os paradoxos da maternidade de um jeito sincero e divertido. Uma das colaboradoras escreveu em seu perfil: “Adora Madona, embora ultimamente só escute Backyardigans”.

O movimento de tirar do armário a infelicidade dos pais encontra amparo no meio acadêmico. Pesquisa atrás de pesquisa corrobora a percepção de que ter filhos pode piorar a vida das pessoas. As conclusões dos estudos sugerem que os pais comem pior, exercitam-se menos, sofrem um tremendo prejuízo financeiro e são mais insatisfeitos com seus parceiros no casamento (leia o quadro abaixo). Um estudo do sociólogo Robin Simon, da Universidade de Wake Forest, nos Estados Unidos, sugere até mesmo que pais são mais depressivos do que as pessoas que não têm filhos – uma conclusão que contraria o senso comum a respeito desse assunto. Na tentativa de mudar esse cenário pessimista, a publicação científica Journal of Happiness Studies chamou a atenção ao encontrar um estudo provando exatamente o contrário – que filhos trazem felicidade. Meses depois, veio o desmentido: os autores tinham se enganado nos cálculos e a nova conclusão era que “ter filhos tem um pequeno efeito no nível de satisfação das pessoas, frequentemente negativo”.
Aqui você pode ler alguns perfis de famílias que contribuíram para a reportagem.

Fonte: Revista Época, 29 de outubro de 2012
Autoras: Nathalia Ziemkiewicz, com Flávia Yuri

Christine Overall


"(...) ainda se espera que pessoas citem motivos para não ter filhos, mas nenhum motivo é exigido dos que decidem tê-los. Simplesmente se presume que essas pessoas são inférteis, egoístas ou que ainda não tiveram filhos, mas terão. Qualquer que seja o caso, é exigido delas uma explicação. Por outro lado, ninguém diz para os pais que acabaram de ter filhos: 'Por que você escolheu ter filhos? Quais são os seus motivos?' A decisão de procriar não é vista como uma questão que precisa ser pensada ou justificada."

Christine Overall
Professora de filosofia em uma universidade canadense, decidiu ser mãe depois de muito pensar, mas não deixou de apreciar a importância da maternidade consciente. Por isso, escreveu o artigo "Think before you breed" (Pense antes de procriar", de onde eu tirei esta citação, publicado em 17 de junho de 2012 no Jornal New York Times.

domingo, 16 de junho de 2013

Molly Peacock


"We live in a pronatalist culture, so when you decide not to have children, you find yourself at the far edge of the bell curve. How do you live happily there? Well, you live happily there if you are comfortable with your own nature. And that requires talking about how to separate motherhood from female identity. It's still a taboo subject -- not even discussed in women's studies programs. And endlessly fascinating to me, especially as the Census Bureau tells us we will be seeing increasing numbers of people making this decision."


"Nós vivemos em uma sociedade pró-natalista. Então quando alguém decide não ter filhos, esta pessoa se sente isolada. E como viver feliz assim? Bem, você poderá ser feliz se estiver confortável em relação à sua própria natureza. E isso exige um diálogo sobre como separar a identidade feminina da maternidade. Este assunto ainda é um tabu − não é sequer discutido em programas de estudos sobre as mulheres. E é infinitamente fascinante para mim, ainda mais depois de saber que o Censo indica que o número de pessoas que tomarão esta decisão será cada vez maior."



Molly Peacock

Escritora americana, autora do livro Paradise,
sobre a decisão que tomou de não ter filhos.

Citação - Virginia Woolf


"Os olhos dos outros são prisões; seus pensamentos nossas celas."

Virginia Woolf
Escritora inglesa

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Leitura do livro "Two Is Enough: A Couple's Guide to Living Childless by Choice" da Laura S. Scott




Em meio à dolorosa e fragmentada jornada de leitura deste outro livro que ainda não criei coragem para voltar a ler, acabei lendo este aí em cima num piscar de olhos. O Two Is Enough: A Couple's Guide to Living Childless by Choice é um desses livros sobre o qual se houve falar bastante quando o assunto são mulheres ou casais sem filhos. A Laura S. Scott começou com um blog, depois escreveu o livro e agora tem até um documentário sobre o projeto todo e tornou-se bastante respeitada nessa área.

Quando comecei minha pesquisa sobre livros que tratam desse assunto, esse me chamou a atenção pelo título (Tradução livre: “Dois bastam: Um guia para casais que escolheram viver sem filhos”), a capa e a descrição nas lojas online. Tudo parecia muito interessante e indispensável para a minha jornada pessoal e, é claro, para o desenvolvimento do meu próprio
projeto, que é o Útero Vazio. Então, trarei de comprá-lo e, como eu disse aí em cima, li bem rapidinho mesmo.

Em resumo: o livro é bom. A Laura teve o cuidado de consultar e utilizar a ajuda de profissionais em pesquisa para elaborar um questionário contundente e durante alguns anos entrevistou centenas de casais que escolheram não ter filhos nos Estados Unidos e no Canadá. As histórias destes casais são bem diferentes e oferecem um panorama amplo e diversificado dos motivos para esta escolha, assim como dos sentimentos e situações enfrentados pré e pós decisão.


“Apenas isso” já bastaria para que eu recomendasse esse livro aqui no blog, mas tem mais: a autora nos presenteia com um capítulo que eu chamo de bônus e que ela chamou de “Recursos” e que aparece no finalzinho do livro. Ele é bem pequeno, mas muito útil para quem deseja mais informações. Lá ela cita sites, blogs, fóruns, grupos e comunidades de pessoas sem filhos, o que permite que encontros, amizades e relacionamentos aflorem tanto virtualmente como no mundo real. E isso é muito importante, porque a maioria dos livros acaba se tornando um túnel sem saída, não deixando rastros para quem deseja continuar se informando sobre o assunto. 


É claro que as referências bibliográficas estão sempre presente nos livros e ajudam, mas a indicação de canais de comunicação com outras pessoas que estão na mesma situação é valiosa demais para ficar de fora. E a Laura acertou em cheio ao incluir estes atalhos em sua obra. Aliás, a referência bibliográfica dela também merece menção, já que é digna de uma especialista! Livros, artigos de jornais e revistas, estudos científicos... haja faro para pesquisa.

Porém, como nem tudo são flores, aqui vão algumas observações que julgo importantes, já que o objetivo desta fase de pesquisa é fazer uma revisão bibliográfica sobre o assunto e o objetivo do blog é registrar honestamente todas as etapas de feitura deste livro.


Repito, o livro é bom. E o recomendo. Mas confesso que alguns aspectos me atrapalharam um pouco durante a leitura. Como, por exemplo, o modo como a Laura compartilhou conosco a história dos entrevistados, ou melhor, pedaços de histórias. Um parágrafo após o outro lemos novos nomes, idades, profissões e, aos poucos, todos aqueles dados começam a se misturar, porque o vai e vem é bastante rápido e frequente. Então a gente acaba não tendo a chance de se aprofundar melhor na história desses casais, como se eles fossem personagens. Não existe linearidade; não existe história com começo, meio e fim. O que existem são declarações e pensamentos soltos. Ela entrevistou os casais separadamente, depois desmembrou e citou as partes que julgou importantes em diferentes capítulos. Os trechos, de fato, são relevantes e até mesmo reveladores, mas eu esperava dar uma boa espiada na vida desses casais e desejei ter tido a chance de conhecê-los melhor. A Jeanne Safer optou pela mesma abordagem no maravilhoso "Além da maternidade" (que já comentei aqui), mas, acho que no livro dela funcionou porque o número de entrevistados era bem menor.

Outro aspecto deste livro que chamou a atenção foi a abundância de dados estatísticos e acadêmicos. O que, é claro, é ótimo. Mas, mais uma vez, a maneira em que eles foram apresentados, por vezes, tornou a leitura confusa. Tantos números e estudos foram citados em meio aos trechos das entrevistas, que eu senti dificuldades de processar todas as informações apresentadas. Após um certo ponto, o vai e volta de conversas íntimas com os casais para os rígidos dados estatísticos acabou tornando a leitura pesada e fragmentou a minha atenção. Senti que, talvez, o ideal fosse eu ler este livro mais umas duas vezes. Uma para me concentrar só nas entrevistas (experiência pessoal) e outra para explorar os dados estatísticos e referências a estudos (experiência acadêmica). Quem sabe assim eu aproveitaria melhor a riqueza de detalhes que a Laura fez questão de incluir em seu livro.

Uma outra coisa que achei curiosa é a incompatibilidade do título (que foi um dos apelos do livro para mim) com o conteúdo em si. Um guia para casais que decidiram não ter filhos? Olha, eu li todas as páginas e ainda não encontrei o guia. Não há muitas dicas, nem exercícios, nem sugestões no livro. Existem conselhos, é verdade, mas eles estão espalhados pelo livro e não são apresentados de forma estruturada, como seria o caso de um guia. Destaco que isto não torna este livro menos proveitoso, apenas destoa do que a capa anuncia.


Veredito: um bom livro. Uma colcha de retalhos de histórias inspiradoras e de dados específicos que, por vezes, pode ser confusa, mas que resulta em um belo trabalho e que, no fim das contas, acaba funcionando. Certamente será útil para quem se interessa em saber mais sobre uma vida sem filhos. Mas é possível que seja bem mais útil para quem está escrevendo um livro sobre o assunto, já que o estilo acadêmico muitas vezes sobrepõe o tom intimista, que é mais útil a quem está curioso sobre este “estilo de vida”.

p.s. Indicado principalmente para quem já tomou a decisão de não ter filhos, uma vez que todos os casais entrevistados já passaram da fase de decisão. Mas também pode ser bastante interessante, para quem está em processo de decisão, ler como os entrevistados decidiram o que fazer.

Nicole Rodrigues

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