sábado, 19 de outubro de 2013

Marcha pela humanização do parto - 19 de outubro de 2013



Quem acompanha este blog sabe que ele trata da decisão de uma vida sem filhos. Ou melhor, ele explora e estimula desde o processo de decisão em si, até a vida após a decisão sobre a maternidade. Aqui, o que importa é que a decisão de todas as mulheres, seja ela qual for, seja respeitada pela sociedade na qual ela está inserida e da qual faz parte, para que cada uma de nós possa viver em paz com o caminho escolhido. Isso inclui o círculo mais próximo, que é o da família; o próximo ciclo que é o de amigos e colegas de profissão, até chegar ao ciclo de conhecidos e desconhecidos, mas que se acham no direito de julgar decisões que não lhes dizem respeito.

E é por isso que faço questão de incluir postagens sobre a violência obstétrica aqui no Útero Vazio. Porque nós, que estamos em processo de decisão ou que já decidimos não ter filhos, não podemos exigir respeito de quem escolhe o caminho inverso, se não ajudarmos as atuais e futuras mamães a desfrutarem do mesmo respeito que almejamos.

Hoje visitei o blog Cientista que virou mãe, da Lígia Moreiras Sena, e encontrei um post informativo sobre a violência obstétrica a qual tantas mulheres são submetidas diariamente em todo o mundo e sobre uma marcha pela humanização do parto que acontecerá hoje em várias cidades do Brasil.
 
Sei que está um pouco em cima da hora, mas se você não tiver planos para hoje, quem sabe não dá tempo de sair às ruas e apoiar esta causa, ficando lado a lado com mulheres guerreiras que, mães ou não, são nossas irmãs de alma. Pois é apoiando e cuidando umas das outras que chegaremos longe e garantiremos uma existência mais humana a todas nós.
Para ver em quais cidades acontecerá a marcha: clique aqui. Já são mais de 30! Aposto que a sua está na lista.
Nicole Rodrigues

domingo, 15 de setembro de 2013

Centro para melhores partos



Todos os anos, centenas de mulheres enfrentam complicações durante a gravidez e o parto. Ainda assim, algumas das técnicas usadas nos procedimentos em trabalhos de parto de risco não mudaram nos últimos 50 anos e podem, de acordo com alguns especialistas da área, fazer mais mal do que bem. 

O programa de rádio "Woman's hour (Hora da mulher) do dia 27 de agosto de 2012", transmitido pelo canal BBC 4 trata deste assunto  e da inauguração do Centre for Better Births (algo como "Centro para melhores partos'") em Liverpool, no Reino Unido.

Este centro tem como objetivo tornar os partos mais seguros e menos traumáticos, assim como evitar que as mulheres que tiveram uma experiência traumática na primeira gravidez enfrentem os mesmos problemas na segunda.

O ideal, é claro, seria que existissem centros como este em todo o mundo, para que todas mulheres que optam por se tornarem mães tenham um experiência positiva desde o nascimento de seus bebês. Mas ainda que esta não seja a realidade atual, é importante que nos mantenhamos informadas sobre a existência destes centos para que, cada uma a sua maneira, e em suas respectivas áreas de atuação, possamos espalhar esta informação e pressionar o nosso governo a investir na saúde da mulher. 

Para ouvir o programa, clique aqui (o capítulo sobre este tema começa por volta dos 10 minutos).

Programa da NBC sobre mulheres sem filhos (em inglês)


Aqui vai a transcrição de um programa da NBC sobre mulheres sem filhos. Prometo que quando sobrar um tempinho eu traduzirei os trechos mais importantes e postarei aqui.


"Back now at 8:46 with more of our special "today's" woman series. This morning the choices we make. A growing number of women are choosing to be child free. And although it may go against conventional wisdom many say their lives are equally as fulfilling. Sarah Brokaw, a licensed psychotherapist and author of "Fortytude."

She loved playing with dolls, star baby sitter in the neighborhood. when it came to wanting children one day, she had very different ideas.

I really enjoyed being around children. But even when i was young, I just kind of knew in the back of my head it wasn't something that I wanted.

Reporter:  and she's not alone. according to a recent pew center study nearly one in five american women in their childbearing years without giving birth. Up from one in ten in the 1970s. As a freelance writer, she discussed her choice of being child free and she says the responses from readers came as no surprise.

I was expecting people to tell me that i was selfish. I get that all the time. I was expecting people to tell me that i was less of a woman because that's something that i get all the time.

Reporter:  so why does society pass judgment on women who choose not to have children?

Society expects that one of the main transitions and roles that we should aspire to are to be mothers. The bottom line is, it is a choice and for women, we don't have to feel like motherhood is a rite of passage that we necessarily have to have.

Reporter: freedom, independence, and fulfillment in other aspects of life have led some women today to choose a child-free lifestyle. But for many of these women, there are still moments of doubt. You're very convincing in your argument being made about choosing not to have children at this point in life, but have there been any moments within the past few years about any second-guessing?

I think the problem for me is that as an older sibling i always felt like it was my job to be the one who had children.

Reporter:  Dr. Taylor says self doubt is typical.

There's no question that they experience self doubt, but they have made a conscious decision that to be a woman and to live a fulfilled life, having a child doesn't necessarily have to be a factor in that.

Reporter:  a feeling she agrees with.

I would love to get married. I would love to have a life partner. I think there's a difference between two adults consciously choosing to spend their lives together versus two adults deciding to bring a third person into the situation.

Sarah brokaw is now with us this morning along with Laura Scott who wrote the book "Two is enough", a couple's guide to living childless by choice." good morning.

Good morning.
Let's start with you and ask you about this idea. What are the stereotypes that you think need to be overcome today?


Well, there's the stereotype, as we mentioned, that you're motivated by selfishness, that you're sort of cold, heartless, and that, you know, you really are not focused on the common good that you're focused entirely on your own self, self value. so that is really one of the issues. the other thing is there is the assumption that you're going to change your mind, that this is some kind of phase that you're going through, that, you know, you're going to hit a wall, that hormonal combustion at 35 or 36 and all of a sudden you're going to change your mind and everything you've chosen for yourself.

And you hear a lot about this in your practice.

i do. i also hear, it's interesting that you're saying that because i think there is a mixture of women that i get in my practice, i think there are a lot of women who do not necessarily want to have kids but they don't know what their calling is. there's the other group of women who would like to have children but they've had a great amount of difficulty. so it's interesting to get both.

All right. so, we have all met people who maybe shouldn't have become parents, okay?

Right.

So maybe we should rethink how much we pressure people into having children.

Absolutely.

So what is the road past these stereotypes based on your efforts to study this situation?

I think you really have to find out exactly what your role is going to be, because motherhood is -- some people might call it a calling but really it's a role, it's not a being. so i think we -- i coach women and couples on reproductive decision making. that's one of the things, what are your values, what is your role that you want to adopt and how do you want to go forward, because motherhood is not the only path to adulthood, maturity, fulfillment, purpose for life.

Exactly what is the road? if it's a road that we're not able to see, what is the road to the things we just heard Laura describe?

I think it's about women really figuring out where their energy levels are, what is their authentic voice telling them. and it may not be about mothering but it could be a calling that's related to children. that could be being a teacher, social worker, congresswomen, nurse practitioner, physician. they feel like what happens is that society looks at women as child bearers. and that's how we're supposed to define our success as women. we're not necessarily. i think there are other ways in which women can relate to children but it doesn't necessarily mean that they have to be moms.

All right. these are very good points. Thank you so much for giving us some sense, a greater clarity on this.



Fonte: NBC

sábado, 17 de agosto de 2013

Mariela Castro



“Não podemos aceitar migalhas em direitos sexuais e reprodutivos.”

Mariela Castro


NOTA:
O blog "Maria da Penha neles" traz uma entrevista interessante com a sexóloga Mariela Castro (filha do ex-presidente cubano, Raul Castro). Leia aqui

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A questão do aborto



O Sr. Drauzio Varella realmente é de outro mundo. Porque deste não pode ser. Um homem mais esclarecido sobre a questão do direito ao corpo do que tantas e tantas mulheres que continuam a permitir que seus corpos sejam controlados por outras pessoas? Não pode ser. Não pode, mas é.

Leiamos todos as palavras dele, quem sabe assim a lucidez e a compaixão toquem nossos corações, quase sempre de pedra.

"Desde que a pessoa tenha dinheiro para pagar, o aborto é permitido no Brasil. Se a mulher for pobre, porém, precisa provar que foi estuprada ou estar à beira da morte para ter acesso a ele. Como consequência, milhões de adolescentes e mães de família que engravidaram sem querer recorrem ao abortamento clandestino, anualmente.

A técnica desses abortamentos geralmente se baseia no princípio da infecção: a curiosa introduz uma sonda de plástico ou agulha de tricô através do orifício existente no colo do útero e fura a bolsa de líquido na qual se acha imerso o embrião. Pelo orifício, as bactérias da vagina invadem rapidamente o embrião desprotegido. A infecção faz o útero contrair e eliminar seu conteúdo.

O procedimento é doloroso e sujeito a complicações sérias, porque nem sempre o útero consegue livrar-se de todos os tecidos embrionários. As membranas que revestem a bolsa líquida são especialmente difíceis de eliminar. Sua persistência na cavidade uterina serve de caldo de cultura para as bactérias que subiram pela vagina, provoca hemorragia, febre e toxemia.

A natureza clandestina do procedimento dificulta a procura por socorro médico, logo que a febre se instala. Nessa situação, a insegurança da paciente em relação à atitude da família, o medo das perguntas no hospital, dos comentários da vizinhança e a própria ignorância a respeito da gravidade do quadro colaboram para que o tratamento não seja instituído com a urgência que o caso requer.

A septicemia resultante da presença de restos infectados na cavidade uterina é causa de morte frequente entre as mulheres brasileiras em idade fértil. Para ter ideia, embora os números sejam difíceis de estimar, se contarmos apenas os casos de adolescentes atendidas pelo SUS para tratamento das complicações de abortamentos no período de 1993 a 1998, o número ultrapassou 50 mil. Entre elas, 3.000 meninas de dez a quatorze anos.

Embora cada um de nós tenha posição pessoal a respeito do aborto, é possível caracterizar três linhas mestras do pensamento coletivo em relação ao tema.

Há os que são contra a interrupção da gravidez em qualquer fase, porque imaginam que a alma se instale no momento em que o espermatozoide penetrou no óvulo. Segundo eles, a partir desse estágio microscópico, o produto conceptual deve ser sagrado. Interromper seu desenvolvimento aos dez dias da concepção constituiria crime tão grave quanto tirar a vida de alguém aos 30 anos depois do nascimento. Para os que pensam assim, a mulher grávida é responsável pelo estado em que se encontra e deve arcar com as consequências de trazer o filho ao mundo, não importa em que circunstâncias.

No segundo grupo, predomina o raciocínio biológico segundo o qual o feto, até a 12ª semana de gestação, é portador de um sistema nervoso tão primitivo que não existe possibilidade de apresentar o mínimo resquício de atividade mental ou consciência. Para eles, abortamentos praticados até os três meses de gravidez deveriam ser autorizados, pela mesma razão que as leis permitem a retirada do coração de um doador acidentado cujo cérebro se tornou incapaz de recuperar a consciência.

Finalmente, o terceiro grupo atribui à fragilidade da condição humana e à habilidade da natureza em esconder das mulheres o momento da ovulação, a necessidade de adotar uma atitude pragmática: se os abortamentos acontecerão de qualquer maneira, proibidos ou não, melhor que sejam realizados por médicos, bem no início da gravidez.

Conciliar posições díspares como essas é tarefa impossível. A simples menção do assunto provoca reações tão emocionais quanto imobilizantes. Então, alheios à tragédia das mulheres que morrem no campo e nas periferias das cidades brasileiras, optamos por deixar tudo como está. E não se fala mais no assunto.

A questão do aborto está mal posta. Não é verdade que alguns sejam a favor e outros contrários a ele. Todos são contra esse tipo de solução, principalmente os milhões de mulheres que se submetem a ela anualmente por não enxergarem alternativa. É lógico que o ideal seria instruí-las para jamais engravidarem sem desejá-lo, mas a natureza humana é mais complexa: até médicas ginecologistas ficam grávidas sem querer.

Não há princípios morais ou filosóficos que justifiquem o sofrimento e morte de tantas meninas e mães de famílias de baixa renda no Brasil. É fácil proibir o abortamento, enquanto esperamos o consenso de todos os brasileiros a respeito do instante em que a alma se instala num agrupamento de células embrionárias, quando quem está morrendo são as filhas dos outros. Os legisladores precisam abandonar a imobilidade e encarar o aborto como um problema grave de saúde pública, que exige solução urgente.

Autor: Drauzio Varella
Fonte: Blog oficial doDr. Drauzio Varella

domingo, 11 de agosto de 2013

Desconstrução do mito da maternidade perfeita - parte I (O corpo após o parto).







Uma das bases da maternidade consciente é a desconstrução dos mitos relacionados a ela. O mito do instinto materno como sendo inato e universal, da gravidez sem incômodos, do parto sem dor, do amor compulsório e imediato pelo bebê... São tantos os mitos que o melhor mesmo é irmos por parte. Não para desmotivar, chocar ou preocupar quem deseja ser mãe, mas sim para informar e oferecer fatos e imagens mais próximas das várias realidades enfrentadas por mulheres que optam por se tornarem mães, garantindo assim que um número cada vez maior de mulheres tenha acesso a informações pertinentes sobre os vários aspectos da maternidade a fim de poderem tomar uma decisão consciente sobre uma vida com ou sem filhos.

Um desses mitos é o de que o corpo não passa por uma transformação drástica durante a gravidez; de que o que muda mesmo são apenas os quilos a mais e que depois é só fazer dieta e emagrecer. E, hoje em dia, mas do que nunca, as mulheres sofrem a pressão de apresentarem corpos esbeltos e perfeitos pouco depois de darem à luz. Mas a verdade é que as profundas transformações que uma gravidez pode impor ao corpo feminino (cicatrizes, estrias, flacidez, envelhecimento precoce, dismorfia...) nem sempre são reversíveis. E pouco se fala nelas, porque elas raramente são discutidas e compartilhadas pelas mulheres. Quase sempre por vergonha. 

Pensando nisso, a fotógrafa americana Jade Beall, se propôs a colaborar para o processo de redefinição do conceito do corpo da mulher bonita.

Segue a reportagem da BBC sobre o projeto dela: 
Um dia ela entrou em seu estúdio com seu bebê de cinco semanas, tirou a roupa, e fez uma série de fotos. Era um corpo que ela não conhecia. Era um formato de corpo que ela nunca tinha tido antes da gravidez. E ela não gostou muito do que viu. Mas Beall decidiu publicar as fotos em seu blog de fotografia, com o intuito de compartilhar um outro lado da maternidade, que não costuma ser mostrado.

"Tantas pessoas me dizem, 'Oh, eu nunca vi um corpo como esse. Não quero que as pessoas achem as minhas fotos de mau gosto. Quero que elas olhem e digam, 'Oh, essa é uma mulher extremamente humana, ou, essa é uma mulher que tem cicatrizes e linhas com histórias para contar. Meu objetivo é ajudar essas mães a se sentirem dignas de serem chamadas de belas," concluiu Beall.

A mídia está cheia de imagens de corpos femininos. Mas não desses tipos de corpos. Por isso Beall fotografou mais de 70 mães que irão aparecer no livro, A Beautiful Body (Um Belo Corpo, em tradução livre), que deve ser lançado em janeiro de 2014. Ela não usou maquiadores, e não há nenhum tipo de retoque nas fotos.

O projeto A Beautiful body tem um lindo site, onde você poderá ler e ouvir histórias de mulheres que compartilharam informações sobre as mudanças que observaram em seus corpos após se tornarem mães e o pacto de silêncio e vergonha imposto até mesmo pelas pessoas mais próximas.

Que medo é esse?



Para quem acha que permitir que mulheres escolham se querem ou não ter filhos significa a extinção da raça humana, eu sugiro deixar a bíblia de lado e começar a ler os jornais.
 
Orfanatos lotados de crianças abandonadas, abrigos temporários para crianças vítimas de abusos sexuais ou violência doméstica cometida pelos próprios pais, falta de comida e moradia para milhões de pessoas em todo o mundo. Continuar tendo filhos indesejados é a solução? Porque quando desejados, gerados, e, então, bem cuidados, tudo muito bem. Mas e quando trazidos a este mundo à força para serem tratados como, ou pior, do que cachorros?

Será que o caminho não é lutar para garantir que cada pessoa tenha a chance de decidir se quer ou não trazer mais alguém para este mundo e se responsabilizar por esta mesma pessoa por boa parte de sua vida?  

E que medo de extinção mais infundado é esse, quando o nosso planeta nunca teve uma população humana maior do que a atual, em toda a sua história? Sete bilhões de pessoas vivendo em um mundo com cada vez menos recursos é a solução? Morreremos todos de fome, de sede, de doenças causadas pela ganância e pela ignorância, espremidos por falta de espaço, com a ideia fixa de que escolher não ter filhos nos levará à extinção?


Por que não nos permitirmos evoluir a ponto de pensarmos além de páginas defasadas cujo texto arcaico nos previne de olhar a realidade ao nosso redor e de respeitar as escolhas e vontades alheias? Desde quando permitir que quem não quer ser pai ou mãe não o seja, significa influenciar os que desejam esta experiência a abrir mão dela? Liberdade de escolha, minha gente, não é influência. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra bem diferente. Cada um tem o direito de pensar por si, mas, certamente, não pelo outro.


Que medo é esse de que o outro pense e decida por si só; de que as mulheres descubram por si mesmas o que desejam ou não para suas vidas. Que fobia é essa de reconhecer que as mulheres têm direito aos seus próprios corpos? Que hipocrisia é essa de que fazer filhos sem pensar ou desejar é permitido, mas não ter filhos quando não os desejamos não é?
Que ultraje é esse que as mulheres que escolhem não ter filhos causam? A escolha delas não afeta ninguém além delas mesmas e não diz respeito a mais ninguém. Tenha você um filho, se o quer tanto. Este sim é o caminho natural.

Filho deve ser sempre uma escolha e não uma obrigação. Filho é para quem o deseja, quando o deseja. É para quem está interessado na experiência de ser mãe/pai e disposto a fazer um bom trabalho.


Podemos ensinar uma mulher a se tornar uma boa mãe. Mas, em nenhuma circunstância, podemos forçá-la a se tornar mãe. E enquanto não aprendermos a ceder o direito individual de reprodução a cada membro de nossa sociedade, não colheremos os frutos coletivos de dividirmos este planeta com pessoas sãs e satisfeitas com o estilo de vida que escolheram. 

Nicole Rodrigues

domingo, 14 de julho de 2013

Ter filhos traz mesmo felicidade?

Para mim está claro que não existe uma fórmula universal para a felicidade, já que o que pode ser sinônimo de felicidade para você, pode não ser para mim e vice-versa. Por isso, raramente acredito nesses estudos do tipo: "o que torna as pessoas mais ou menos felizes", como se tudo se encaixasse em questões de múltiplas escolhas, com respostas de uma palavras ou uma linha. Porém, achei interessantíssimo a Revista IstoÉ ousar discutir um dos maiores tabus de nossa sociedade: o de que filhos sempre é sinônimo de felicidade para quem os tem.


Reportagem da Revista Época
Por que a discussão realista sobre os problemas da paternidade causa tanto desconforto – e como ela pode ensinar os casais a sofrer menos.
É 1 hora da madrugada. Um choro estridente desperta a ex-judoca olímpica Danielle Zangrando, de 33 anos. Desde que levou Lara do hospital para casa, as mamadas a cada três horas impedem o sono de antes. Ela pula da cama e oferece à filha o peito. Depois, troca a décima fralda daquele dia, embala a bebê no colo, caminha com ela em busca de uma posição que a faça parar de chorar. O choro prossegue. Daniele tenta bolsa de água quente e gotinhas de remédio. Nada de o berreiro cessar. Duas horas depois, mãe e filha formam um coro: Danielle também cai em prantos, desesperada. É a primeira cólica de Lara, com 20 dias de vida. O pai, Maurício Sanches, funcionário público de 48 anos, se sente impotente. Está frustrado e desconta a frustração na mulher: “Você comeu algo que fez mal a ela?”. A partir de então, Danielle se privará também do chocolate. Já desistira do sono, da liberdade, do trabalho como comentarista de esporte. Na manhã seguinte, ainda exausta da maratona noturna, retomará a mesma rotina, logo cedo: amamentar, dar banho, trocar fralda, botar para dormir. “Ninguém sabe de verdade como é esse universo até entrar nele”, diz Danielle. Hoje, Lara está com 2 anos. As noites não são tão duras quanto costumavam ser. Mas Danielle e Sanches ainda dizem que ter filhos é uma missão muito mais difícil do que eles haviam imaginado.

Eis um problema: a paternidade, que deveria ser o momento mais feliz da vida dos casais – de acordo com tudo o que aprendemos –, na verdade nem sempre é assim. Ou, melhor dizendo, não é nada disso. Para boa parte dos pais e (sobretudo) das mães, filhos pequenos são sinônimo de cansaço, estresse, isolamento social e – não tenhamos medo das palavras – um certo grau de infelicidade. Ninguém fala disso abertamente. É feio. As pessoas têm medo de se queixar e parecer desnaturadas. O máximo que se ouve são referências ambíguas e cheias de altruísmo aos percalços da maternidade, como no chavão: “Ser mãe é padecer no Paraíso”. Muitas que passaram pelo padecimento não se lembram de ter visto o Paraíso e, mesmo assim, realimentam a mística. Costumam falar apenas do amor incondicional que nasce com os filhos e das alegrias únicas que se podem extrair do convívio com eles. A depressão, as rachaduras na intimidade do casal, as dificuldades com a carreira e o dinheiro curto – disso não se fala fora do círculo mais íntimo e, mesmo nele, se fala com cuidado. É tabu expor a própria tristeza numa situação que deveria ser idílica.

A boa notícia para os pais espremidos entre a insatisfação e a impossibilidade de discuti-la é que começa a surgir um movimento que defende uma visão mais realista sobre os impacto dos filhos na vida dos casais. Seus adeptos ainda não marcham nas ruas com cartazes contra a hipocrisia da maternidade como um conto de fadas. Mas exigem, ao menos, o direito de falar publicamente e com franqueza sobre as dificuldades da situação, sem ser julgados como maus pais ou más mães por se atrever a desabafar. Por meio de livros e, sobretudo, com a ajuda da internet, eles começam a falar claramente sobre os momentos de angústia, tédio e frustração que costumam acompanhar a criação dos filhos. Nas palavras da americana Selena Giampa, uma bibliotecária de 35 anos, dona do blog Because Motherhood Sucks (A maternidade enche...), “a maternidade está cheia de momentos de pura felicidade e amor. Mas tudo o que acontece entre esses momentos é horrível. Amo ser mãe, de verdade. Mas tenho de dizer a vocês que, assim como qualquer outro emprego, muitas vezes eu tenho vontade de pedir as contas”. Com uma notável diferença: ninguém pode se demitir do emprego de mãe ou de pai. Ele é vitalício.

O melhor exemplo dessa nova maternidade é o livro Why have kids (Por que ter filhos), sem previsão de lançamento no Brasil, escrito pela jornalista americana Jessica Valenti, de 34 anos. Durante a gravidez de sua primeira e única filha, Jessica teve um aumento perigoso de pressão arterial. Layla nasceu prematura, pesando menos de 1 quilo. Passou oito semanas na incubadora do hospital. Ao longo dos 56 dias em que viu a filha sofrer dezenas de procedimentos invasivos, Jessica refletiu sobre como idealizara a experiência de ser mãe. Seu livro parte daí para criticar a cobrança pela maternidade perfeita, uma espécie de pano de fundo imaginário contra o qual as mães de verdade comparam suas imensas dificuldades e seus inconfessáveis sentimentos negativos. “Não falar sobre a parte ruim da maternidade só aumenta o drama dos pais e as expectativas irrealistas de quem ainda não é”, disse Jessica a ÉPOCA.

Compartilhar abertamente as agruras pode funcionar como válvula de escape. As amigas Trisha Ashworth e Amy Noble, também americanas, dividiram muitas angústias por telefone antes de escrever o livro Eu era uma ótima mãe até ter filhos, lançado no Brasil pela editora Sextante. Com bom humor, elas fazem reflexões do tipo: “Sou uma mãe de quinta categoria por ter gritado com uma criança de 4 anos depois de ela se levantar 12 vezes numa noite?”. Assim como elas, há muita gente produzindo conteúdo crítico para desconstruir a maternidade como um perfeito comercial de margarina – inclusive no Brasil. Os textos ácidos do blog Ombudsmãe, cujo nome faz trocadilho com o profissional contratado para criticar a empresa em que trabalha, são um exemplo. “Duro mesmo é quando surge um chato na forma de filho”, diz um desses textos. “Há os que obrigam os pais a usar cinto de segurança. Os que choram diante do leitãozinho assado. Os que cheiram o hálito da mãe, tornando-se legítimos representantes da patrulha antifumo instalados dentro da nossa própria residência.” Outro é o site Mamatraca, que publica diariamente vídeos que lidam com os paradoxos da maternidade de um jeito sincero e divertido. Uma das colaboradoras escreveu em seu perfil: “Adora Madona, embora ultimamente só escute Backyardigans”.

O movimento de tirar do armário a infelicidade dos pais encontra amparo no meio acadêmico. Pesquisa atrás de pesquisa corrobora a percepção de que ter filhos pode piorar a vida das pessoas. As conclusões dos estudos sugerem que os pais comem pior, exercitam-se menos, sofrem um tremendo prejuízo financeiro e são mais insatisfeitos com seus parceiros no casamento (leia o quadro abaixo). Um estudo do sociólogo Robin Simon, da Universidade de Wake Forest, nos Estados Unidos, sugere até mesmo que pais são mais depressivos do que as pessoas que não têm filhos – uma conclusão que contraria o senso comum a respeito desse assunto. Na tentativa de mudar esse cenário pessimista, a publicação científica Journal of Happiness Studies chamou a atenção ao encontrar um estudo provando exatamente o contrário – que filhos trazem felicidade. Meses depois, veio o desmentido: os autores tinham se enganado nos cálculos e a nova conclusão era que “ter filhos tem um pequeno efeito no nível de satisfação das pessoas, frequentemente negativo”.
Aqui você pode ler alguns perfis de famílias que contribuíram para a reportagem.

Fonte: Revista Época, 29 de outubro de 2012
Autoras: Nathalia Ziemkiewicz, com Flávia Yuri

Christine Overall


"(...) ainda se espera que pessoas citem motivos para não ter filhos, mas nenhum motivo é exigido dos que decidem tê-los. Simplesmente se presume que essas pessoas são inférteis, egoístas ou que ainda não tiveram filhos, mas terão. Qualquer que seja o caso, é exigido delas uma explicação. Por outro lado, ninguém diz para os pais que acabaram de ter filhos: 'Por que você escolheu ter filhos? Quais são os seus motivos?' A decisão de procriar não é vista como uma questão que precisa ser pensada ou justificada."

Christine Overall
Professora de filosofia em uma universidade canadense, decidiu ser mãe depois de muito pensar, mas não deixou de apreciar a importância da maternidade consciente. Por isso, escreveu o artigo "Think before you breed" (Pense antes de procriar", de onde eu tirei esta citação, publicado em 17 de junho de 2012 no Jornal New York Times.

domingo, 16 de junho de 2013

Molly Peacock


"We live in a pronatalist culture, so when you decide not to have children, you find yourself at the far edge of the bell curve. How do you live happily there? Well, you live happily there if you are comfortable with your own nature. And that requires talking about how to separate motherhood from female identity. It's still a taboo subject -- not even discussed in women's studies programs. And endlessly fascinating to me, especially as the Census Bureau tells us we will be seeing increasing numbers of people making this decision."


"Nós vivemos em uma sociedade pró-natalista. Então quando alguém decide não ter filhos, esta pessoa se sente isolada. E como viver feliz assim? Bem, você poderá ser feliz se estiver confortável em relação à sua própria natureza. E isso exige um diálogo sobre como separar a identidade feminina da maternidade. Este assunto ainda é um tabu − não é sequer discutido em programas de estudos sobre as mulheres. E é infinitamente fascinante para mim, ainda mais depois de saber que o Censo indica que o número de pessoas que tomarão esta decisão será cada vez maior."



Molly Peacock

Escritora americana, autora do livro Paradise,
sobre a decisão que tomou de não ter filhos.

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