quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Padrões idealizados de maternidade



Engraçado como o universo às vezes conspira mesmo! Justo essa semana que estou escrevendo sobre os padrões idealizados de maternidade encontrei, completamente por acaso, lendo as notícias de hoje, esse texto sobre um estudo britânico que aponta que mães temem comparação com outras e mentem sobre criação dos filhos.
"As mães são pressionadas a se adequar a um ideal e tendem a omitir fatos sobre a criação de seus filhos quando conversam sobre o assunto com outras mães, segundo um levantamento feito por um site britânico.
Elas não revelam, por exemplo, a quantidade real de horas que as crianças passam em frente à TV ou o que os filhos realmente comem - revelou uma pesquisa britânica.
Estas omissões, ou mesmo "mentiras", também se aplicam a questões como quanto tempo passam com o parceiro, revelou o estudo, feito pelo site Netmums.A pesquisa contou com a participação de cinco mil pessoas.
O site britânico, que oferece suporte e aconselhamento sobre assuntos ligados à maternidade e à educação dos filhos, disse que com frequência mães sofrem pressão para se adequar a um ideal de perfeição, e que, por isso, acabam omitindo fatos sobre a educação dos filhos.
"As mães precisam ser mais honestas umas com as outras", disse Siobhan Freegard, uma das fundadoras do site Netmums, que possui 840 mil membros em vários pontos da Grã-Bretanha.
O site está pedindo que as pessoas sejam mais honestas ao descrever sua vida familiar para que as mães não se sintam forçadas a se enquadrar em padrões idealizados de maternidade.
Quase dois terços dos entrevistados disseram que tinham sido pouco francas ao descrever quão bem estavam lidando com as dificuldades da vida familiar e quase a metade omitiu preocupações financeiras.

Cerca de um quarto das mães admitiu não dizer a verdade sobre quantas horas de televisão as crianças assistem. E um quinto exagerou a quantidade de tempo dedicado a brincadeiras com as crianças.
Freegard citou o caso de uma mãe que, exausta, decidiu voltar para a cama durante o dia. Quando lhe perguntaram por que não havia atendido o telefone, ela disse que estava fazendo biscoitos e que suas mãos estavam cobertas de farinha.
Segundo os autores do estudo, outra situação comum em que mães são pouco francas é em conversas com outras mães no portão da escola.

Muitas mães não se sentem à vontade quando comparadas à outras e esse sentimento de inadequação seria resultado de pressão social: mais de nove entre dez entrevistadas admitiram comparar-se a outras mães.
O site está lançando uma campanha que incentiva os pais a aceitarem a realidade que vivem, ao invés de se sentirem mal por não poderem se adequar a um mito de perfeição.
"A imperfeição nos torna humanos", disse Freegard.
Uma das entrevistadas, identificada como Becky, disse que era difícil ser honesta: "Minha amiga estava me dizendo que limitava o acesso do filho ao Playstation e eu concordei, dizendo que meu filho também só jogava uma hora por dia, depois de fazer a lição de casa".

"Depois de dizer isso, me senti mal por não dizer a verdade", a mãe acrescentou.

"É muito difícil levantar a mão e admitir que você educa seus filhos diferentemente dos seus amigos".

O sociólogo e especialista em educação na família Frank Furedi disse que os pais sofrem "pressões profundas" da sociedade.

Ele acrescentou que, mesmo com as melhores intenções, relatórios como o estudo feito pelo site Netmums aumentam a pressão sobre os pais.

"Pais são sempre julgados, de uma forma ou de outra - incluindo por meio deste estudo. A solução real é deixar os país à vontade e publicar menos pesquisas".
A psicóloga Linda Papadopoulos aconselhou aos pais que deixem de comparar-se uns aos outros.
"Você está competindo com ninguém além de você mesmo - tudo o que você pode fazer é buscar o melhor para você e seu filho"."

Autor: Sean Coughlan
Fonte: BBC News

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Leitura obrigatória IV: "Ao sul do corpo".


Mais um dia de bons achados! Hoje encontrei o texto "A representação da maternidade no romance Adam Bede, de George Eliot" (que infelizmente não contém o nome da autora, mas aqui vai o link para o PDF, para quem quiser ler do começo ao fim) que, por sua vez, me alegrou ao citar o livro Ao Sul do Corpo da historiadora Mary Del Priore. Esse eu não conhecia, mas já tratei de inseri-lo na minha lista de leitura obrigatória.

A autora do texto refere-se ao livro da seguinte forma:
um estudo histórico sobre as condições das mulheres e, sobretudo, sobre a maternidade no Brasil Colonial, também atenta para a presença marcante da importância da maternidade na mentalidade histórica. Mary Del Priore demonstra a força do conceito da “santamãezinha”, ou seja, da mãe bondosa, dedicada e assexuada, construído na época colonial brasileira e que se enraizou no imaginário social, atravessando os séculos e chegando aos nossos dias:

Quatrocentos anos depois do início do projeto de normatização, as santasmãezinhas são personagens de novelas de televisão, são invocadas em párachoques de caminhão (“Mãe só tem uma”, “Mãe é mãe”), fecundam o adagiário e as expressões cotidianas (“Nossa Mãe”, “Mãe do céu”); (...) A maternidade extrapola, portanto, dados simplesmente biológicos; ela possui um intenso conteúdo sociológico, antropológico e uma visível presença na mentalidade histórica. (DEL PRIORE, 1993)



Fonte do texto: UNB - Revista Intecâmbio


domingo, 17 de julho de 2011

A (DES)CONSTRUÇÃO DA MATERNIDADE


Escultura "Vida", produzida pela artista plástica Eliana Kertesz.

Nesta fase de pesquisa, que parece não ter fim, encontrei um texto chamado
“A (des)construção da maternidade” escrito pela Maria das Graças Pinto. Eu não sei se trata-se de um resumo de um estudo acadêmico mais extenso ou se a pesquisa que ela fez foi apresentada em apenas 6 páginas mesmo. De qualquer forma vale a pena a leitura. O meu trecho favorito segue abaixo:


Opção pela maternidade: o que dizem as mulheres

Opção resulta em possibilidade de escolha. No que diz respeito à maternidade, nem sempre essa relação tem se mostrado tão fácil de ser percebida. Grande parte das vezes parece predominar um caráter de obrigatoriedade nessa “opção”.
Uma das primeiras indagações feitas aos sujeitos da pesquisa [que fiz para este livro], dizia respeito a como ocorreu à opção pela maternidade. Segundo Cristina [uma das entrevistadas], essa decisão foi muito discutida, juntamente com o seu marido, tendo surgido muitos momentos de “recuo”. Para Ela a “opção” por ter filhos a acompanhou desde muito cedo, inclusive com certo caráter de idealização. No caso de Márcia, esta relatou que ser mãe fosse apenas um desejo desde a adolescência.
A opção pela maternidade demonstra estar menos relacionada com uma escolha do que propriamente com um fascínio, uma decorrência óbvia e natural da existência feminina.
Parece que a outra possibilidade, a de não ser mãe, não está tão fortemente inscrita, seja na infância, na adolescência ou na vida adulta. Dificilmente ouviremos alguém dizer: eu sempre quis não ser mãe.
Provavelmente um dos motivos para não se reconhecer o fato de que a maternidade deveria se configurar efetivamente em uma opção esteja no peso social que recai sobre as mulheres que dizem não a essa prática.”.


Leio o texto da Maria das Graças na íntegra clicando aqui.


Fontes:
Texto citado:
http://www.anped.org.br/reunioes/29ra/trabalhos/posteres/GT23-2235--Int.pdf

Imagem: escultura exposta em uma maternidade no Acre.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Guardiãs



Esse blog significa muito para mim. E é assim porque aqui, no útero vazio, eu exploro toda a curiosidade e vulnerabilidade que a questão da maternidade desperta em mim. Há um medo enorme e uma vontade pungente de descobrir como chegamos onde chegamos. Como nos tornamos o que nos tornamos: galinhas chocadeiras, vacas leiteiras, coelhas com mais filhos do que vontade de viver, ou o que pode ser ainda pior, coelhas sem filhos e que não sabem como viver num mundo de coelhas parideiras.
Muitas de nós são felizes assim, reproduzindo em ciclos, outras são tão infelizes que a loucura toma conta e coisas terríveis acontecem. Filhos torturados, espancados, assassinados, ou psicologicamente massacrados pela confusão, desespero, despreparo ou descaso dos pais.

É claro que há quem os queira, quem deles cuide muito bem e quem os ame infinitamente. Mas o problema nasce quando o primeiro caso, o querer, passa a ser tido como uma condição natural e universal a ser aplicada a todas as coelhas do mundo, e até, pasmo, a ser chamada de lei da natureza: “Coelha é assim, nasce, reproduz e morre. É a vida.”

De fato esta é a vida delas. Das coelhas que não podem refletir, não podem questionar, e muito provavelmente não podem escolher. Mas nós não somos coelhas. E muitas de nós parecem se surpreender ao se darem conta disso. Pelo simples fato de que muito se aceita sem reflexão, sem questionamento e, principalmente, em função da pouca valorização e prática do auto-conhecimento. Nós não somos ensinadas a pensarmos por nós mesmas, não somos estimuladas a compreendermos e alimentarmos desejos e inclinações individuais. Nós seguimos o fluxo como um rebanho de bezerras em fila indiana. Sem perguntarmos às outras e a nós mesmas para onde estamos indo e se este é o caminho que gostaríamos de seguir. E quando isso acontece o nome muda, aceitação passa a ser chamada de imposição. E filho não deveria ser sinônimo de imposição. Parir ou até mesmo adotar é, e deve ser sempre, uma opção. Sempre, sempre e sempre, sem exceção.

Quem teve filhos que os ame, e quem não os teve que se permita ser amado pelo próximo, ainda que esse amor tenha que ser conquistado à força, depois de muita luta e muito protesto para que mulheres sem filhos sejam tão valorizadas quanto as que os têm. E que essa luta também se estenda às mulheres que os têm, para que o peso da maternidade seja menor para elas, e que elas aprendam a amar suas crias sem deixar de amar a si mesmas. Porque não pode haver um sem o outro. Um filho deveria ser uma extensão da vida, e não a condição, a razão, o único motivo para se viver. O querer viver bem é importante para que as mães se permitam viver uma vida boa e plena e ele poder servir de exemplo para o outro, seja ele o filho ou o próximo. Este querer sim deveria ser cobrado, almejado, praticado, espalhado, ensinado, estimulado, multiplicado. Mas não o é.

E nós bem sabemos que viver bem é bicho complicado. Bem mais complicado do que ser coelha. Mas eu gosto de pensar que um bom começo é aceitar que a natureza só é bela porque é diversa. E que a diversidade é uma dádiva, um tesouro que deve ser aceito e, acima de tudo, protegido. Então cabe a nós, e não às coelhas, nos tornamos guardiãs da liberdade de escolha em relação à maternidade. Para que possamos viver em harmonia, com ou sem filhos, na selva em que esse mundo se tornou.

Nicole Rodrigues


sábado, 9 de julho de 2011

Resposta aos comentários [Gmail maledito!]





Recebi alguns emails mencionando dificuldades em postar comentários aqui no útero. Eu sinceramente não sei o que raios esse Gmail/Blogger está pensando ao impedir que eu e vocês comentem aqui. Já fucei tudo e pelo visto não é uma configuração do útero que está causando esse problema, e me pergunto se é apenas aqui ou se o mesmo está acontecendo em outros blogs também?

Como, e apesar da dificuldade, recebi comentários e emails muito especiais essa semana resolvi fazer um post-resposta:

@ Diva
Obrigada pelo selinho! Eu já agradeci lá no seu blog mas fica registrada a minha gratidão aqui também.

Que bom que a marcha das vadias chegou na sua cidade! Eu li sobre o assunto há alguns meses em um jornal internacional e nunca pensei que chegaria no Brasil, muito menos em tantas cidades!

É importante que esse movimento seja compreendido. Porque não se trata de nós mulheres querendo nos tornar vadias, mas sim de provarmos que não o somos quando nos vestimos da maneira que desejamos, e que as nossas roupas e comportamento não deveriam servir de desculpa para estupradores e agressores.
Um beijo diva das unhas sempre lindas!


@ Luciana
Recebi o seu email (adorei e me emocionei) e vou responder com calma, logo mais, prometo. O seu relato me fez refletir bastante. Com caipiroska e tudo, hein? Caprichadíssimo! Obrigada!!! :-) Nos falamos já já!


@Fran
Você voltou! E voltou após ter lido o Mito do amor materno o que é melhor ainda! O seu comentário diz tudo, a sua leitura obviamente foi bem-feita e é exatamente essa a intenção desse blog. Fornecer e compartilhar fontes de informações para que possamos compreender como chegamos ao ponto em que chegamos (em que filhos são uma obrigação e não uma opção), e para que possamos tomar uma decisão muito consciente sobre a questão da maternidade. Com ou sem filhos o que importa é que sejamos conhecedoras dos nossos verdadeiros desejos, sejam eles abençoados pela sociedade ou não. Afinal de contas quando se tem um filho a responsabilidade é nossa e não dos outros, não é mesmo?
p.s. toda vez que eu tento te encaminhar os posts via email a mensagem volta. O seu email ainda é o mesmo? Se você puder confirmar o seu email eu agradeço: heterocefala@hotmail.com

 
@ Manuella
Mas é claro que eu lembrei de você! Pode esperar os posts na sua caixa postal agora que eu tenho o seu email. Então você leu o Complexo de Cinderela e gostou? Isso é ótimo! Um livro escrito há mais de 20 anos e ainda tão atual, (atualmente o meu livro favorito) o que nos mostra o quanto nos contentamos com pouco e paramos de nos mobilizar e lutar por avanços significativos na igualdade de direitos entre homens e mulheres depois de conquistarmos alguns poucos. E o quanto, acima de tudo, esquecemos de refletir sobre a importância de praticarmos o livre arbítrio sem aceitarmos imposições sociais. O complexo de cinderela é a bíblia da liberdade de escolha feminina. Um livro que nos ajuda a compreender que "filha", "esposa" e "mãe", são apenas algumas das muitas facetas do universo feminino; papéis não obrigatórios e que, nem sempre, nos tornam "mais mulher" ou nos fazem mais felizes.

@ Andrea de Paula

Vim para dizer que não me esqueci de você. Recebo seus emails  e sempre os leio com muita atenção e interesse. Visitei o seu blog outro dia e vi a menção ao útero vazio. Obrigada! Alegrou-me saber que o útero é como "um jornal diário" e que aqui você encontra informações que lhe são utéis. Continuemos a caminhada de mãos dadas confiantes de que valerá à pena seguir rumo ao auto-conhecimento e à fraternidade entre mulheres.


Que bom ter todas vocês aqui comigo nesse útero vazio (cada vez mais cheio)!

Nicole

domingo, 3 de julho de 2011

Leitura obrigatória III: "Um amor conquistado - o mito do amor materno".


I

"A voz do ventre? Mas só hoje começamos a perceber como o desejo de ter um filho é complexo, difícil de precisar e de isolar de toda uma rede de fatores psicológicos e sociais. À idéia de "natureza feminina", que cada vez consigo ver menos, prefiro a de uma multiplicidade de experiências femininas, todas diferentes, embora mais ou menos submetidas aos valores sociais cuja força calculo. A diferença entre a fêmea e a mulher reside exatamente nesse "mais ou menos" de sujeição aos determinismos. A natureza não sofre tal contingência e essa originalidade nos é própria"

II

"Ainda é difícil questionar o amor materno, e a mãe permanece, em nosso inconsciente coletivo, identificada como a Maria, símbolo do indefectível amor oblativo."

Élisabeth Badinter,Autora do livro "Um amor conquistado - o mito do amor materno".

Para ler este livro em pdf clique aqui.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Leitura obrigatória II: "Experiências de mulheres sem filhos: a mulher singular no plural".


"O tema da maternidade mobiliza emocionalmente qualquer mulher, pois ela sabe que não ter filhos, por opção ou circunstância, implica não realizar um potencial, desviar-se de uma norma secular e instaurar uma significativa e incômoda diferença. Pravaz (1981, p. 97) avalia que a mulher sem filhos enfrenta seus próprios sentimentos e o olhar dos outros, uma vez que "encerra um mistério não revelado em seu interior, não se mostrou por dentro, não chegou a 'saber se' por inteiro.

A maternidade parece demonstrar que a mulher está inteira e completa, "que seu interior conserva intacta sua identidade ao repetir o rito ancestral de gestar parir"; a capacidade de ter um filho, de preferência sadio, pode significar "salvar se do desterro da comunidade de mulheres mães", uma vez que, sendo como as demais, a mulher estabelece sua pertinência ao mundo feminino e ocupa o lugar para ela reservado no âmbito socio-cultural.

Portanto, mulheres sem filhos são freqüentemente estigmatizadas, e a manutenção dos preconceitos geralmente provoca sentimentos de exclusão e anormalidade. Goffman (1982), reexaminando o conceito de estigma, criado pelos gregos para indicar sinais corporais através dos quais se tornava visível algo de extraordinário ou mau relativo ao status de quem fosse o seu portador, observou que, na atualidade, o termo é usado de maneira bastante semelhante ao sentido original, embora seja aplicado mais à própria desgraça do que à sua evidência corporal."

Este é apenas um trecho de uma dissertação de mestrado em forma de estudo exploratório* das dimensões atribuídas à não maternidade cuja autora é a  Luci Helena Baraldo** Mansur. Essa dissertação virou livro (foto) em 2003, então se você quiser ler mais sobre o assunto você pode comprá-lo ou ler o texto orignal na íntegra clicando aqui.


* Dissertação de Mestrado: Experiências de Mulheres sem Filhos: a Mulher Singular no Plural. Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, 2000, 190p
** Psicóloga, Mestre e Doutoranda em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Fonte:
http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932003000400002&lng=es&nrm=

terça-feira, 21 de junho de 2011

Leitura obrigatória I: "Nós, as vadias" de Lélia Almeida



Queridas uterinas, demorei mas voltei, trazendo uma "leitura obrigatória" para esta semana: o texto "Nós, as vadias" de Lélia Almeida.

Leia um trecho abaixo e na íntegra aqui.

"Sempre que as mulheres dão as mãos e saem às ruas, o mundo muda, não duvidem disso jamais, revisitem a história do mundo, mesmo que pareça que caminhamos em círculos sem fim, já que as repetições são insanas, e os retrocessos absurdos. Sempre que as mulheres saem às ruas para brigar contra as injustiças alguma coisa acontece, ainda que as mudanças tardem e a gente sempre tenha que relembrar, refazer, retornar aos motivos essenciais, primeiros, e ajudar as mais jovens a lembrar o quanto é importante não esquecer. Êita movimento de mulheres este, idas e vindas, avanços e tantos atrasos."

Lélia Almeida

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A importância do útero (mesmo vazio)


"A missão do útero não se limita à nobre tarefa de abrigar uma nova vida nem termina com o nascimento do bebê. O órgão ajuda a manter o assoalho pélvico que dá sustentação à bexiga. Sem esse suporte, há risco de surgir uma incontinência urinária, por exemplo. É do útero, também, que partem importantes artérias que alimentam os ovários. Mal nutridos, eles começam a entrar em falência e sua vida útil diminui, em média, seis anos. Por fim, o órgão também serve de passagem para muitos nervos. Quando esse caminho é cortado, podem surgir agumas alterações neurológicas nos genitais. "O conceito de que ele só serve para ter filhos está bem ultrapassado."

Claudio Basbaum,
ginecologista do Hospital e Maternidade São Luiz, em São Paulo

Cllique aqui para ler a matéria "Mulher por inteiro" de Gabriela Cupani, publicada na revista Saúde, que trata da questão do impacto da retirada do útero e dos ovários na saúde da mulher.

terça-feira, 31 de maio de 2011

A aflição de ser eu e não ser outra


"Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra."


Hilda Hilst
(poeta, escritora e dramaturga brasileira)


segunda-feira, 30 de maio de 2011

Diários uterinos

Os diários são atalhos para a alma de quem os tem. Talvez por isso eu não tenha um: não creio que a minha alma esteja pronta para ser lida por aí. Ainda assim, gosto de ler o diário de outras pessoas – o que é no mínimo irônico, eu sei – e resolvi compartilhar com vocês os itens de uma coleção de diários que um dia pretendo completar para ler várias e várias vezes, do começo ao fim do livro e da vida. Porque além do prazer da leitura curiosa em si, os diários são o material ideal para o livro que estou escrevendo, o “Útero Vazio”, que de uma certa forma nada mais é do que um diário coletivo. Talvez por isso, e não por coincidência, os 4 diários que eu mais desejo ler tenham sido escritos por uterinas muito queridas sobre as quais não me canso de pesquisar:

1) O diário de Virginia Woolf – dividido em 5 volumes (escrito de 1915 a 1941)


Trecho do diário:

“Valha-me Deus! Discutimos quase toda a manhã! E a manhã estava linda e agora desapareceu no Hades para sempre, ferida com as marcas do nosso mau-humor. Quem começou? Quem continuou? Eu sei lá. O que posso dizer é isso: eu fervo em pouca água, e o Leonardo fervilha.” [1]

2) O diário de Virginia Woolf II – “A casa de Carlyle e outros esboços”


Trecho sobre o diário:

"Até 2003, este diário estava esquecido em uma gaveta. A datilografia dos textos tinha sido encomendada pelo marido da escritora, Leonard Woolf, em 1968, a uma jovem chamada Teresa Davies. Mas antes mesmo que Teresa tivesse começado o trabalho, Leonard adoeceu e morreu. Sem saber o que fazer com o caderno de papel pardo, ela o guardou, permanecendo intacto até o ano passado.O diário tem a forma de um bloco de notas e a inscrição "1909" na capa. Mas, ao contrário dos diários posteriores, recheados de acontecimentos, impressões e impropérios, este é um caderno de esboços, divididos em sete capítulos, que revelam uma Virginia Woolf ainda não consagrada, uma autora em formação, uma mulher cheia de dúvidas.” [2]


3) O diário de Frida Kahlo (escrito de 1944 a 1954)

Trecho sobre o diário:

“Ler o diário de Frida Kahlo é inquestionavelmente um ato de transgressão, com certa matriz voyeurista. Este documento constitui a expressão mais íntima dos sentimentos da artista, cuja intenção não foi publicá-lo. Por esta razão cabe catalogá-lo dentro do gênero do diário íntimo, série de anotações de caráter pessoal realizadas por uma mulher. (...)O fato de Frida Kahlo incluir parte da sua obra gráfica no seu diário pessoal converte a este último numa peça quase única entre os “jornais íntimos” dos que se têm conhecimento. Esta coleção de imagens difere do típico caderno de esboços de artista, habitualmente utilizados para guardar traços preliminares de obras posteriores, ou melhor para pôr em formato reduzido a solução de quadros maiores. Só numa ocasião a pintora transformou um desenho realizado a tinta, incluído no diário, num quadro em grande escala. E diferente dos outros, Frida Kahlo deixa de lado os acontecimentos quotidianos e expressa no seu diário – como Virgínia Woolf – uma marca de sentimentos (e imagens) que não se encontra em mais nenhuma outra parte.” [3]

4) O diário de Beatrix Potter


Trecho sobre o diário:

"Na adolescência, Beatrix Potter começou a escrever um diário secreto, em código. Quinze anos após a sua morte, o código pôde ser decifrado. Foi publicado em inglês, sob o título de “Beatrix Potter: A Journal”. [4]


Fontes:
[1] http://virginiawoolf.wordpress.com/2011/05/22/cotidiano-1/
[2] http://srv-net.diariopopular.com.br/03_10_04/ir290902.html
[3] http://www.diariografico.com/htm/outrosautores/Frida/Frida03.htm
[4] http://www.alexsensfuziy.com/2011/04/06/sylvia-plath-escreveu-sobre-virginia-woolf/

sábado, 14 de maio de 2011

sionista americana fundadora da organização "Hadassa",

Dolly Parton


Sobre o que sentiu após se submeter à laqueadura (um processo de esterilização definitiva, que consiste no fechamento das tubas uterinas).

"I was feeling guilty about not having kids, about having a career, that I'm not the woman I should be because I don't have a desire to have them, that I was selfish."

“Eu me senti culpada por não ter filhos, por ter uma carreira, por não ser a mulher que eu deveria ser já que eu não desejo tê-los, por ser egoísta.”


Dolly Parton
Cantora e compositora americana


Fonte: Dolly Parton online



domingo, 8 de maio de 2011

O dia das Aias


No dia das mães nós vamos falar das Aias, as mulheres que, no mundo criado pela Margaret Atwood, eram forçadas a ter um filho após a outro e existiam exclusivamente para procriar. Elas eram mães, portanto o dia de hoje também é delas, mas eram um tipo bem diferente: mães escravizadas, que não tinham tempo nem condições de idealizar a maternidade, nem de criar laços com os filhos que não desejavam ter. Eram verdadeiras máquinas de parir. Vale à pena visitar o mundo delas e refletir sobre ele.

Sinopse do livro

A história de "O conto da aia", da canadense Margaret Atwood, passa-se num futuro muito próximo e tem como cenário uma república onde não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes ? tudo fora queimado. As universidades foram extintas. Também já não há advogados, porque ninguém tem direito a defesa. Os cidadãos considerados criminosos são fuzilados e pendurados mortos no Muro, em praça pública, para servir de exemplo enquanto seus corpos apodrecem à vista de todos. Para merecer esse destino, não é preciso fazer muita coisa ? basta, por exemplo, cantar qualquer canção que contenha palavras proibidas pelo regime, como "liberdade". Nesse Estado teocrático e totalitário, as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes. O nome dessa república é Gilead, mas já foi Estados Unidos da América.
 
Como tudo pôde mudar tão rapidamente? Offred, a narradora, responde: "Foi depois da catástrofe, quando mataram a tiros o presidente e metralharam o Congresso, e o Exército declarou estado de emergência. Na época, atribuíram a culpa aos fanáticos islâmicos. Mantenham a calma, diziam na televisão. Tudo está sob controle. (...) Foi então que suspenderam a Constituição. Disseram que seria temporário. Não houve sequer um tumulto nas ruas. As pessoas ficavam em casa à noite, assistindo à televisão, em busca de alguma direção. Não havia mais um inimigo que se pudesse identificar." Não, este não é um romance pós-atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Margaret Atwood, a grande dama da literatura contemporânea em língua inglesa, publicou-o originalmente em 1985. O livro já é um clássico, há muitos anos adotado nos colégios ingleses, canadenses e americanos.
 
E agora ganha tradução para o português.As mulheres de Gilead não têm direitos. Elas são divididas em categorias, cada qual com uma função muito específica no Estado ? há as esposas, as marthas, as salvadoras etc. À pobre Offred coube a categoria de aia, o que significa pertencer ao governo e existir unicamente para procriar. Uma catástrofe nuclear tornou estéril grande parte das pessoas, de modo que as mulheres férteis agora são preciosidades. Transformadas em aias, elas são entregues a algum homem casado do alto escalão do exército e obrigadas a fazer sexo com eles até engravidar. Portanto, a cada mês, menstruar é fracassar. E quando elas engravidam, dão à luz e amamentam a criança por alguns meses, sendo que o bebê é propriedade do casal que as escravizou. Após o período de amamentação, elas são entregues a outro homem e passam pelo mesmo martírio novamente, agora com outro nome ? Offred é "of Fred", "de Fred", "pertencente ao homem chamado Fred". Ao longo da vida, uma aia pode ter vários donos e, portanto, vários nomes: Ofglen, Ofcharles, Ofwayne...As aias são controladas e vigiadas dia e noite.

Elas não têm permissão para escrever nem ler, só podem ir ao banheiro um determinado número de vezes por dia e não devem permitir que nenhum homem veja qualquer parte do seu corpo exposta, nem mesmo os braços. O ideal é que nem seu rosto seja mostrado.

É uma vida triste, mas um destino melhor que o das não-mulheres, como são chamadas aquelas que não podem ter filhos, as homossexuais, viúvas e feministas, condenadas a trabalhos forçados nas colônias, lugares onde o nível de radiação é mortífero.Offred tem 33 anos. Antes, quando seu país ainda se chamava Estados Unidos, ela era casada e tinha uma filha. Mas o novo regime declarou adúlteros todos os segundos casamentos, assim como as uniões realizadas fora da religião oficial do Estado.
 
Era o caso de Offred. Por isso, sua filha lhe foi tomada e doada para adoção, e ela foi tornada aia, sem nunca mais ter notícias de sua família. É uma realidade terrível, mas o ser humano é capaz de se adaptar a tudo. Offred escreve em seu diário proibido: "A sanidade é um bem valioso: eu a amealho e guardo escondida, como as pessoas antigamente amealhavam e escondiam dinheiro. Economizo sanidade, de maneira a vir a ter o suficiente quando chegar a hora."Com esta história assustadora, Margaret Atwood leva o leitor a refletir sobre liberdade, direitos civis, poder, a fragilidade do mundo tal qual o conhecemos, o futuro e, principalmente, o presente. O conto da aia já foi transformado em filme, peça de teatro, ópera, audiolivro e dramatização radiofônica.
 

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Mais do mesmo



 


Já faz algum tempo que ando pensando nisso quase sem parar, daí lembrei de um texto da querida Lélia Almeida que começa assim:

Hoje a minha faxineira me disse que nem gosta mais tanto assim do marido, mas que vai continuar com ele. Perguntei o motivo e ela disse, Dona Lélia, ele nem me bate!”

E assim a vida continua ao lado desse porque ele nem me bate, daquele porque ele nem reclama, do outro porque ele nem me trai.

Daí penso: será que nós mulheres poderíamos ter estabelecido expectativas mais baixas em relação aos nossos maridos?

Será que precisamos mesmo nos submeter tanto assim, porque tem mulher que apanha todo dia então se não apanhamos já somos sortudas; se não temos um marido bancando o pai e reclamando de tudo 24 horas por dia já é vantagem, se o marido não enche a nossa cabeça de chifres isso já conta pontos pra ele... Como e quando nós decidimos que o pouco que as mulheres da idade da pedra receberam dos maridos será o pouco que nós também teremos?

Será que esse não é o tipo de herança que é melhor recusar? Porque se não for pra ter um marido bom qual é a razão para ter um marido? Problemas e crises todo casamento tem, afinal de contas são duas pessoas dividindo o mesmo espaço e tentando alinhar sonhos e vontades individuais ao mesmo tempo, mas daí a um casamento inteiro ser um martírio, um sacrifício, um sofrimento contínuo, um dia atrás do outro, como uma fila indiana de frustração, insatisfação, desconsideração e desrespeito.

Antes, quando as mulheres não podiam estudar, não podiam votar, não podiam se divorciar e não podiam escolher seus próprios parceiros, não fazia sentido algum, mas pelo menos historicamente compreendia-se as razões que as forçavam a continuar em um casamento que só as machucava. Mas hoje em dia? Que, pelo menos no nosso Brasil, nós, mulheres, temos direito a tudo? Pode demorar ou custar um pouco mais caro, um pouco mais de esforço, de vontade, mas querendo e se permitindo tentar uma mulher brasileira pode sim chegar a qualquer lugar e posição que desejar, então por que nos contentamos com o pouco que nos dão? Com esmola, com resto?

E não adianta dizer que não existe homem bom porque existe. O que não existe é oferta sem demanda. Se não tem quem queira o produto ele sai do mercado e é obrigado a ser reformulado até agradar os consumidores. Se marido que bate for denunciado, se marido que trai for largado, se marido que reclama o dia todo for recriminado, uma coisa ou outra vai ter que acontecer: ele vai mudar, ou você vai largar. Pode não ser na primeira vez, mas opção você tem. O quanto vai durar, quantas chances você vai dar, quantas vezes você vai tentar, vai avisar ou vai perdoar, é decisão e problema seu, mas não venha me dizer que não tem solução porque tem.

Se o cara não muda, não melhora, e nem tem intenção de mudar o que diabos você ainda está fazendo aí? Cada dia nessa situação é um a menos de felicidade e um a mais de mais do mesmo. E não adianta culpar os filhos ou a velhice porque no final a decisão de continuar nos trilhos da infelicidade é sua e só sua, de mais ninguém.

E quem acha que não é bem assim deveria ler o livro “Quando as mulheres rompem” da Isabelle Yhuel. Segue o meu trecho favorito abaixo.

"Madeleine, 68 anos, pediatra.

Ao final de três meses de mais uma reforma na casa, compreendi que apesar das aparências eu não tinha vivido com Victor. Depois de 20 anos roçávamos na vida como ao longo dos corredores dessa casa que habitávamos, onde cada um tinha o seu quarto num extremo já que a rotina de nossas vidas não era a mesma, estando Victor insone metade da noite. Ele era diretor adjunto de uma sociedade, trabalhava muito, viajava muito, e eu era pediatra. Portanto tínhamos levado com os nossos filhos uma vida familiar bastante frouxa. Victor tinha sido casado uma primeira vez e eu também, antes de nos casarmos. A reforma foi um momento terrível, porque mesmo tendo cada um de nós mantido as ocupações, o cotidiano depressa foi de faísca entre nós! Revelávamos ser totalmente insólitos um ao outro, não tínhamos de modo algum evoluído da mesma maneira. Victor tinha se ocupado de curiosidades culturais e sociais, que partilhávamos antes, curvado sobre um mundo de questões superficiais que não me interessava, o mundo das aparências, e eu não tinha grande coisa a partilhar com as pessoas que ele freqüentava. Já eu tinha amigos com os quais ele se aborrecia. E, depois, ele estava sempre ocupado. Todos os dias ele tinha a necessidade de organizar dezenas de coisas a serem feitas no dia seguinte, enquanto eu tinha o desejo de suspender o tempo e aprender a andar e a viver devagar. Eu desejava o tempo como um vasto espaço aberto diante de mim, o que só acontece tarde na vida, quando os filhos já estão grandes e nos sentimos mais sozinhas. Como estávamos ambos sob a influência desta passagem à reforma, que não é uma etapa fácil de gerir, eu me conformei. Mas tudo ia de mal a pior. Ao escutá-lo eu não o ouvia. Eu não suportava a presença constante dele na minha vida, nas minhas decisões, na minha rotina. O modo como ele se apropriava de todos os cômodos; tinha a sensação de que ele estava em todo lado ao mesmo tempo, deixando rastros de bagunça, embora ele dispusesse de um escritório na casa, e eu não. Eu não tinha um lugar em minha própria casa onde eu pudesse estar tranqüila, sozinha, sem ser interrompida. Então eu acabava me forçando a sair da casa na tentativa de encontrar algum conforto até finalmente ficar esgotada e de mau humor. Quando chegava, fatigada, temia que ele lá tivesse porque ia fazer perguntas , ligar a televisão. Achava-o extremamente barulhento. Claro que havia também momentos de cumplicidade e riso, mas o prazer a dois era tão pequeno e escasso em relação ao peso da vida cotidiana com que atingia os meus nervos.

Por vezes eu soltava um “Precisamos nos separar”, mas sempre soava tão ridículo nas nossas idades... começar de novo...

A minha irmã mais velha me ajudou sem saber. O marido dela, que sempre tinha sido autoritário, se aposentou e a partir desse momento a convivência deles se tornou insuportável. Ela dizia que vivia os anos mais difíceis de sua vida, com ele sempre por perto a reclamar. Vê-la assim tão infeliz, me fez tomar uma decisão. Disse a mim mesma que aquela não era a velhice que eu queria pra mim e preveni Victor de minha intenção de nos separarmos. Mas ele achou que não aconteceria e nem se deu ao trabalho de discutir. Então uma tarde eu disse: Amanhã eu irei embora. “Você não me avisou que tinha uma viagem organizada com amigos” respondeu ele pois pensou que as malas eram pra uma viagem. Eu não parto em viagem. Fico nesta cidade ou país mas amanhã deixarei essa zona. Então ele me ameaçou, lembrou-me que eu não tinha nada, visto que a enorme casa onde vivíamos era dele, havia sido comprado com o dinheiro dele. Fez-me uma chantagem banal citando o dinheiro. Eu tinha consciência de que uma forma de bem-estar iria desaparecer da minha vida, mas também tinha consciência de que me restavam, na melhor das hipóteses, dez ou quinze anos para viver com boa saúde, ainda viva e curiosa, e estes anos seriam, por outro lado, mais preciosos do que qualquer conforto que aquele casamento pudesse me garantir. Portanto mantive a minha decisão. Então ele pôs-se a chorar disse que não suportaria ficar sozinho, e entrou em pânico como uma criança. Isto reforçou a minha decisão, eu não queria viver com alguém unicamente PR razões práticas pra ele e pra um conforto recíproco. Eu a governanta, a secretaria, a faz-tudo, ele o rei que me sustenta.

Aluguei um apartamento bonito de 3 cômodos e um preço bem razoável. Preveni os amigos de que substituiria o salmão pela lentilha, mas os encontros para bater papo seriam os mesmos. Os meus filhos reprovaram, mas depois se acostumaram com a idéia. Eles e os meus amigos tinham medo por mim, pensavam que eu sentiria falta dele, ou do conforto. Todos hoje estão tranqüilos depois de verem no meu rosto e ouvirem na minha voz que esta ruptura foi uma libertação.

Eu não estou só, mas livre, não é a mesma coisa e não penso em voltar a viver com alguém. Parece estranho levantar essa questão agora que tenho 65 anos, pois imaginamos que com esta idade toda a vida de sedução terminou. Eu própria pensava assim. Com o meu marido nós quase já não fazíamos amor. Atualmente eu vivo uma verdadeira relação amorosa. Quando me vou encontrar com esse homem o meu coração bate, e eu estou lá de corpo e coração. Vivendo só eu descubro todos os dias que sou diferente do que eu pensava. Claro que chegará um momento em que as minhas forças declinarão, em que estarei cada vez mais doente. Será preciso ficar com o meu marido unicamente para sermos um dia enfermeiros um do outro? Não quero alienar o meu presente para um possível futuro, o qual não sabemos nem como será. Encontrarei soluções à medida que as dificuldades se apresentarem, como fazem tantas mulheres sozinhas, viúvas ou celibatárias.
Só hoje compreendo o que significa a palavra independência. Eu era uma mulher autônoma, mas me pergunto até que ponto a personalidade e o estilo de vida de Victor me limitaram a uma vida que não é a minha escolha. Amo a minha independência.
Hoje em dia, aprendo a ser suficiente para mim mesma, a pensar por mim mesma, a mudar a minha vida quando decido, a não me colar a códigos de conduta ou decência, a ser livre!"

Nicole Rodrigues






domingo, 1 de maio de 2011

Complexo de Cinderela


"We’ve been groomed and educated for dependency – for motherhood, for wifedow; for what is really, when we sit down and analyse it, an infinitely extended childhood. When marriages break-up, women are often profoundly shocked to find themselves in charge of their own lives for the first time. Deep down they had always believed that to be supported and taken care of by someone else was their God-given right."

"Nós fomos criadas e educadas para sermos dependentes – para sermos mães e esposas; para o que, na verdade, quando nós paramos para analisar, é a extensão de uma infância infinita. Quando os casamentos acabam, as mulheres ficam profundamente chocadas ao perceberem que estão no controle de suas vidas pela primeira vez. No fundo elas sempre acreditaram que ser cuidada e sustentada por outro alguém é um direito que lhes foi dado por Deus."

Colette Dowling
Autora do livro "Complexo de Cinderella"

Tradução: Nicole Rodrigues




terça-feira, 26 de abril de 2011

Acabando com o mito - Semana de conscientização sobre a infertilidade (de 24 a 30 de abril)


O número de mulheres inférteis e de mitos sobre a infertilidade é tão grande que a Associação Americana de Infertilidade decidiu criar a Semana de conscietização sobre a infertilidade. Uma semana dedicada a acabar com os mitos sobre a infertilidade e compartilhar informações sobre diferentes formas de se construir uma família.

Como você pode ajudar? Comece educando a si mesma. Pesquise sobre o tema e aprenda o máximo que puder, depois compartilhe essas informações com a sua família e amigos.


Você é infértil? Então escreva e compartilhe a sua história conosco (via email, blog, comentários).

Você tem um blog? Então publique em seu blog algum artigo acadêmico, matéria de jornal ou estudo científico sobre o tema. E, se quiser, publique o link do seu post sobre a fertilidade aqui nos comentários do útero vazio para que outras pessoas interessadas no assunto possam ler as informações que você escolheu compartilhar.

Mãos à obra uterinas!

Nicole Rodrigues 

domingo, 24 de abril de 2011

A minha tese




A Angela Carneiro, uma escritora e ilustradora muito talentosa (com quem eu esbarrei na internet nos últimos dias e que passei a seguir) veio visitar o útero vazio e me enviou o seguinte comentário:

"Gostaria de entender melhor a sua tese!"

Lá fui eu responder o comentário e quando vi já não cabia mais no espaço destinado à mensagem, então a minha resposta acabou virando esse post, o que no fim das contas é uma coisa boa já que permite que eu compartilhe, mais uma vez, o que me levou a criar esse blog.

A minha tese, que eu nunca chamei de tese até hoje, nada mais é do que experiência própria. Nós, mulheres, fomos e somos moldadas desde pequenininhas não só a desejar mas a aceitar incondicionalmente a maternidade como algo intrínseco à nossa existência. Nasceu mulher = vai parir e só então experenciará a evolução absoluta, o amor maior, o sacrifício divino; só então entenderá a importância de ser mulher, etc, etc, etc. Como se a condição feminina fosse uma ciência exata, como a matemática, ou prevista por natureza e por lei.

O que funciona muito bem para quem quis e quer ter filhos, quem desejou ou assimilou esse amor maternal "nato" que brotou, cresceu e se instalou tão naturalmente em suas vidas. Mas e quem não se sente assim? Quem nunca sentiu esse desejo brotando? Quem não deseja parir, não deseja adotar, não deseja ser mãe? E quem ainda não decidiu? Quem, em vários momentos, pensou: será que eu quero isso pra mim? Onde é que essas mulheres todas cabem, vivem, se escondem? Onde é que esse debate, esse questionamento, essa reflexão individual em um meio coletivo acontece? Não acontece.

Simplesmente não há espaço em nossa sociedade para isso. O que existe é o estigma, o preconceito, o desrespeito. O que se ouve é um coral de vozes a repetir: “Ela é egoísta, é imatura, nunca vai se sentir completa, deve ser infértil a coitada, o marido vai largar por outra que queira dar filhos pra ele, essa pobre vai envelhecer sem ter quem cuide...” sempre partindo do pressuposto de que a situação da mulher que não pode ter filhos deve suscitar piedade, e de que a escolha consciente de não ter filhos deve despertar o desprezo ou o julgamento. “Ela não sabe o que está fazendo, está cometendo um erro e vai se arrepender.”

E as poucas mulheres que não sentiram o desejo de se tornarem mães e decidiram não ceder à pressão social e seguir adiante sem filhos acabam passando o resto de suas vidas à margem e temendo pelo dia em que, de acordo com os outros, descobrirão que tomaram a decisão errada.

A minha tese, dona Angela, é que já passou da hora de abrir espaço para quem ao menos se permite questionar esse condicionamento para saber se ele virou desejo mesmo ou não, porque só através desse questionamento é possível tomar uma decisão de forma consciente e não apenas automaticamente, achando que ter filhos é o que devemos fazer, porque é isso o que esperam de nós.

A maternidade consciente deve ser uma benção. Uma experiência incrível sem sombra de dúvida. Mas a maternidade indesejada, por sua vez, deve ser a pior maldição. Então tratemos de enfrentar o medo de descobrir se queremos mesmo nos tornar mães. Lendo sobre outras mulheres ao redor do mundo que através de livros, desenhos, quadros e diários compartilharam conosco seus medos, dúvidas, descobertas e certezas sobre uma vida sem filhos.

Este espaço é para todas elas, é para todas nós, que agora temos um útero vazio repleto de informações que podem nos ajudar a tomar ou entender melhor a nossa decisão sobre a maternidade.

Quem decidir que quer ter filhos tem mais é que ter mesmo, quantos quiser, paridos ou adotados, e ser muito feliz. Filhos desejados, que venham todos! E quem não pode ou decide não tê-los deve poder seguir em paz sabendo que o mundo também pertence a elas e que elas não estão sozinhas no mundo. Já que o mundo não é feito só de filhos.


Nicole Rodrigues


p.s. aqui vai o link para o Cafézinho com biscoito, o delicioso blog da Angela.



Imagem: A woman reading by a window de Vilhelm Hammershoi
Fonte:
http://www.friendsofart.net/en/artists/vilhelm-hammershoi

sábado, 23 de abril de 2011

Beatrix Potter e Pedro Coelho

E quem disse que o útero vazio não tem post especial de páscoa? Tem sim senhoras. Com coelho e tudo.

Com vocês: o Pedro Coelho. 


O personagem mais famoso de um útero vazio muito especial: a Beatrix Potter, escritora e ilustradora de livros infantis que se dedicou à arte de criar lindos personagens, muitas vezes baseados em seus próprios animais de estimação. O Pedro mesmo foi um deles. Um coelho que segundo ela era “muito preguiçoso e adorava deitar no tapete perto da lareira”. A história desse coelhinho que aprontou muitas travessuras nos jardins do senhor McGregor foi publicada em 1902 e desde então já vendeu mais de 45 milhões de cópias em todo o mundo!



Para quem quiser saber os detalhes das aventuras do Pedro Coelho fica a dica: volte a ser criança e leia um dos livros infantis mais queridos de todos os tempos.




Para quem quiser saber mais sobre a Beatrix, que só casou aos 47 anos e nunca teve filhos, assista ao filme baseado em um período da vida dela e dê uma olhada nos links indicados abaixo no "leituras adicionais".



Se você quiser passar a páscoa colorindo o Pedro Coelho da Beatrix: clique aqui!


Feliz Páscoa queridas uterinas!


 

Fontes e leituras adicionais:
Texto (biografia) sobre Beatrix: http://www.leme.pt/biografias/beatrix-potter/
Como tudo começou: http://www.angela-lago.com.br/1Potter.html
Desenhos do Pedro Coelho para colorir: http://www.desenhosparacolorir.org/desenhos/61-desenhos-para-colorir-Peter-Rabbit.html

Site oficial do Pedro Coelho (em inglês): http://www.peterrabbit.com/
Visite a casa da Beatrix: http://www.nationaltrust.org.uk/main/w-vh/w-visits/w-findaplace/w-hilltop
Childless Beatrix: http://lifewithoutbaby.wordpress.com/2011/03/12/beatrix-potter/


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